A HERESIA ANALÍTICA[1]

 j b und sein engel 1925

   J.B und sein Engel - Hannah Höch

Clara M. Holguín
AME, Membro da NEL/AMP

Introdução

Este seminário procura se perguntar sobre qual “garantia” que faria falta para responder aos impasses de uma época caracterizada pelo declínio do Outro enquanto aquele que representava o lugar da norma e da proibição. Trata-se de uma época em que a presença dos uns sozinhos, aquilo que se denominou Um-dividualismo, caracteriza o laço social como “vitória do um sobre o Um da exceção” (BROUSSE, 2018).

Por um lado, coloca-se em evidência o empuxo universal da palavra e sua consequente perda de valor de enunciação, de modo que tudo possa ser dito e não haja nada para desvelar. Por outro, constatamos o “retorno sensacional de um Mestre” (MILLER, 2016), que vem para ordenar o mundo e dizer, com normas cada vez mais rígidas, aquilo que está certo e aquilo que não está. Como contrapartida, temos a segregação, o ódio e o racismo. Quanto mais individualismo, quanto mais gozo, mais barreiras e mais fronteiras dão conta de uma ordem social que não se baseia nem na exceção e na hierarquia, nem no nome e na lei como limite, mas que é uma ordem de ferro.

O título do XX Encontro Brasileiro do Campo Freudiano – “A queda do falocentrismo” – nos permite elaborar uma leitura dessa reorganização subjetiva a partir do fim do reino da norma nos termos de uma queda do falo enquanto centro da economia libidinal. Uma releitura tanto do texto “A significação do falo” quanto dos operadores universais e existenciais, propostos por Lacan nas fórmulas da sexuação, nos delineia um caminho.           

A queda do falocentrismo e o não-todo

Na Conferência de Genebra sobre o sintoma, Lacan ([1975] 1998) propõe uma mudança na definição do inconsciente que tem como ponto fundamental a elaboração de uma nova teoria do sintoma. “Decompõe a realidade sexual do inconsciente na realidade sexual, por um lado, e o inconsciente, por outro” (BERENGUER, p. 40). Duas dimensões do sintoma: uma implica o encontro com lalíngua e uma ativação do corpo por um efeito de gozo, os quais, simultaneamente, introduzem as dimensões do Um e do furo; e outra que se refere à elaboração secundária do sentido. É a partir do real que ele emerge acompanhado dos efeitos de lalíngua no corpo e é assim que ele começaria sua busca por significação.

A coalescência entre lalíngua e realidade sexual, o heterecto (Um + hetero), que Lacan denominará troumatisme, faz com que o sujeito busque um Sinn, uma significação, mesmo que sob a perda da Bedeutung, que aqui está relacionada à realidade sexual (em oposição ao sentido do sintoma). Esse real que é inominável e sem-sentido introduz a pergunta pelo real do falo e permite que Lacan produza um deslocamento que vai do falo como aquilo “que verifica qualquer coisa”, ao falo “que verifica o real”, passando de sua significação ao seu real.

O falo passa, assim, de medida do gozo ao gozo que não consente com a medida. Daí que seja factível ele dar conta da lógica feminina tal como explicitada por Lacan nas fórmulas da sexuação. Se, do lado da lógica masculina, temos o uso do quantificador “existe”, que permite capturar algo desse gozo fálico; do lado da lógica feminina, não contamos com esse quantificador “existe” – e, portanto, trata-se de um não-todo para o falo. O feminino não diz que não. Há um todo em expansão, sem limites e sem castração, um sim ilimitado ao falo que dá lugar a um conjunto aberto. Aparece um Outro gozo, uma outridade que chamamos de gozo feminino.

Então, que não haja quem diga não ao falo, que não haja um “existe” que capture esse falo como gozo/palavra, não quer dizer que não haja gozo. Trata-se de outro gozo, enigmático, misterioso e opaco ao significante, pura ausência ou, como diz Lacan, um gozo-ausência. Um gozo que é da ordem do sem-sentido, para além do falo articulado ao Édipo. “Há um gozo dela sobre o qual talvez ela mesma não saiba nada a não ser que o experimenta – isto ela sabe” (LACAN, [1972-1973] 1985, p. 100).

É a partir desse ponto que se torna possível interrogar quais são as consequências, no laço social, da queda do falocentrismo e da desaparição do juízo de existência, localizado no lado masculino das fórmulas da sexuação. Ou seja, o que acontece se não há um Um da exceção que faça uma classe e que garanta a universalidade do conjunto delimitado? (cf. BROUSSE, 2018).

Em um mundo onde não há amarração fálica nem ponto de basta, nos confrontamos com esse falo real que introduz uma nova perspectiva: não limitado pela “medida comum”; isto é, diante da desaparição do juízo de existência, resta o juízo universal como sentido comum, o ordinário como ficção universal do “todos” e do “nós” sem limites. Assim, dá-se a introdução da lógica do não-todo, na qual se põe em jogo um gozo impossível de negativizar.

Como disse Brousse (2018), o universal se realiza pela via do um, um, um (Um-dividualismo), armando a ficção de um universal a partir do “nós”.

A perspectiva psicanalítica propõe outros tipos de enodamentos, que Lacan chamará de sinthomáticos, para dar conta do nó dos três registros e produzir uma nova forma de se arranjar com o real sem lei. Isso implica um caminho por fora do sentido, do significante e do pai da tradição, por fora da castração e do sentido comum. Pelo lado do feminino, pode-se pensar outra garantia, tanto para a prática quanto para a instituição analítica, a partir da noção de heresia.

A heresia se define como a “ação de fazer uma escolha”.

O termo em latim, que se traduz para o francês como héresie, é homofônico à pronúncia francesa da sigla ‘RSI’, evocando a marca central do ensino de Lacan: a invenção dos três registros, Real, Simbólico e Imaginário [...], onde Lacan explora distintos modos de sustentação da estrutura da realidade humana” (FUENTES, 2018, p. 204).

Trata-se de uma tomada de posição em relação a uma verdade singular que não está contida no Outro. Ou melhor, a heresia “do sinthoma desenodado em seu real e em sua estrutura, sem sacrificar o gozo sem-sentido” (FUENTES, 2018, p. 204).

Ainda que seja possível considerar que Lacan é um herege desde o começo de seu ensino, a partir do seu retorno a Freud e da reconquista do campo Freudiano, diante dos quais a excomunhão da IPA coloca em ato a foraclusão do pai da tradição e da herança, há um uso renovado do termo que vai para além disso.

Ao mesmo tempo que sua escolha passa pelo distanciamento da ciência, na medida em que, para a psicanálise, não há um saber inscrito no real, ela também se separa do campo da religião ao reclamar uma verdade que não crê no pai, mas no sinthoma e, assim, propõe uma atualização da psicanálise. Trata-se da escolha forçada de cada ser falante no que toca sua experiência com a palavra, com o encontro traumático e singular entre corpo e significante, que dá conta de como o corpo goza.

Essa via herética implicará que Lacan se solte de Freud para se apoiar em Joyce e nas místicas – no movimento das beguinas. Lacan precisa da ajuda de Joyce para repensar o fundamento da psicanálise, já não mais ancorado na referência ao Pai e ao inconsciente freudiano, senão no funcionamento em ato da linguagem como veículo de gozo: lalíngua.

Joyce: um herege no campo da literatura

Para Lacan, Joyce compensa com seu sinthoma, ou seja, com seu nome e com sua obra, o pau mole, a força fálica que seu pai não lhe transmitiu. Tem acesso, não sem o uso da palavra e da letra, ao gozo opaco excluído do sentido que se impõe em seu corpo e, ao mesmo tempo, goza disso.

Em função do fracasso da função do significante, no lugar da crença de que tem um corpo e da consequente adoração desse corpo, não há mais que um vazio, uma pura ausência. Gozo sem limite que exibe: não é “um corpo significante dado pelo falo [...], ele é captado em sua relação com o falo não significante, aí onde o gozo fálico vem se inscrever diretamente sobre o corpo [...]. O gozo se faliciza, mas ele também se lumaniza (se lomellise) ou lameliza (lamellise)” (LAURENT, 2016, p. 55). Para entender a solução de Joyce, é preciso entender que ele e sua obra são a mesma coisa.

Ele cria Um corpo com sua escrita, da qual tem orgulho e goza disso com esse corpo. Arranja um escabelo com seus escritos, isto é, faz-se reconhecer pelo modo estranho com que escreve. Faz com sua obra um isolamento da literatura em relação ao sentido, porque com aquilo que ele escreve não é possível fazer uma narração, um relato nem história alguma. Estabelece uma ordem, um Ego que ajuda a sustentar o corpo. Sua obra é um arranjo para aquilo que está desajustado com ele.

Diante do pau mole, é a firmeza de sua obra que o faz homem. No lugar do NP e da significação fálica que ali se encontra anulada, aparece “o faunético”[2], conjunção entre pau/corpo e palavra. Assim, para Joyce, tomar a palavra é como que ter uma ereção, ter algo para dizer, ter um corpo, o falo. Ele supre a moleza com a arte e ela lhe proporciona um vigor que passa por um uso especial dos fonemas, pela função fálica localizada como função de fonação.

Joyce nos ensina que um corpo falante não se define pela imagem (como no estádio do espelho), nem pela norma (normâle), mas que se trata antes de Um corpo que se tem a partir do sinthoma, um corpo que se goza. É em função disso que Lacan deduz que o problema da linguagem não é a comunicação, é o gozo. Ter Um-corpo aponta para os fluxos, para o molhado, para as enjambrações, para o essaim (RSI) – para algo feito de linguagem e de gozo.

Para concluir, podemos dizer que, em Joyce, mais do que foraclusão do Nome do Pai, se trata da foraclusão da Imago, de um defeito de formação do Ego. Diferentemente da imagem do espelho, onde me reconheço esquecendo a discordância e a fragmentação, o arranjo de Joyce as inclui. Ele faz entrar esse corpo que está mais aquém, supondo a conjunção entre o significante e o corpo (S1 + gozo/corpo), que Lacan denomina acontecimento de corpo, ou melhor, acontecimento corporal.

A heresia de Joyce é saber fazer com o opaco do gozo, é se fazer um homem por uma via diferente da do nome. É preciso algo diferente do pau para se crer um macho, diz Lacan. Ele faz isso pela via do Ego, uma via pelo imaginário que não é a imagem, mas um escabelo. Fazer-se um artista é sua maneira de se enodar, de ter Um corpo através de um Ego-corretor. Com essa solução, ele inclui o mais singular do sinthoma, isso que se goza.

Lacan: herege da “boa maneira” 

Que faz de Lacan um herege? Qual é sua escolha? Lacan propõe que sigamos no caminho do encontro com esse gozo desconhecido do corpo. Sua heresia, que se apresenta tanto na experiência analítica quanto na Escola[3], supõe fazer aparecer o real, que é seu invento. Para isso, ele escolhe “a via por onde tomar a verdade” (LACAN, [1975-1976] 2007, p. 16), uma verdade por fora do sentido, a partir do encontro com a fala.

Não se trata nem de uma divergência caprichosa nem de contrariar os dogmas arbitrariamente. Antes, isso consiste em se distanciar do sentido quando se trata do sinthoma. Praticar a ascese do sentido, permanecendo no campo da linguagem, mas tomando como regra seu suporte material, ou seja, a letra, lalíngua, como assinalará Miller, em O ser e o Um. A via herética permite tomar partido pela abstenção do sentido, não há neutralidade.

Se Joyce ensina Lacan a como tratar o gozo opaco e sem medida através da palavra não articulada, isto é, através do sem-sentido, do som e do equívoco, até que se goze com isso; as místicas ensinam Lacan o que é o amor feminino, uma ascese do gozo-ausência. Contrariamente à ortodoxia religiosa, que tem como causa o “para todos” da exigência do amor pelo semelhante, o movimento místico, ao qual apenas faremos uma alusão aqui, permite perceber o incognoscível do extremo íntimo do amor do Outro divino, cuja certeza se encontra na experiência do êxtase de um corpo Outro, hétero.

Alguns esclarecimentos (cf. LAIA, 2018): ainda que Lacan ([1975-1976] 2007, p. 16) situe Joyce como “herético de uma boa maneira”, ele se diferencia dele, na medida em que lhe dá o nome Joyce, o sinthoma, o santo-homem. Ainda que ele consiga se fazer escritor e coloque os estudantes ao trabalho por mais de 300 anos, ele não chega a nomear seu sintoma. Pelo contrário, a nomeação do fim da análise não vem do Outro; ela constitui, antes, uma invenção para viver de outro modo as pulsões, esse corpo vivo que se goza. Por outro lado, diferentemente de Joyce, para os analistas, não se trata de ter orgulho de nossa tarefa. Um analista não pensa que seus analisantes são suas obras e não fica identificado ao escabelo. O analista deve saber castrar seu escabelo.

Lacan dirá, então, que, se os analistas chegam à heresia, eles são um pouco mais sólidos do que Joyce, porque, em primeiro lugar, fazem cessar o ilimitado, enquanto que, para Joyce, ele se lhe impõe incessantemente – inclusive na escrita ele tampouco pode parar –; e, em segundo lugar, se espera que possa fazer para si um coletivo que não no modo joyceano, que coletiviza no estilo do deciframento universitário, mas também não no estilo da época, que evoca o “nós”, ou melhor, a via da identificação. Espera-se que o analista possa fazer um coletivo a partir do sinthoma, isto é, a partir dessas soluções singulares.

Lacan quer para sua Escola hereges da boa maneira, seres falantes (parlêtres) que façam a experiência da verdade, que escolham, mas que, por sua vez, também submetam essa escolha a uma confirmação. “A boa maneira é aquela que, por ter reconhecido a natureza do sinthoma, não se priva de usar isso logicamente, isto é, de usar isso até atingir seu real” (LACAN, [1975-1976] 2007, p. 16). É para essa garantia que apontamos.

O herege lacaniano supõe ver-se com essa ausência a partir da qual encontra uma solução singular – o sinthoma. Invenções que não estão do lado da medida comum, senão mais além dos limites do pai, onde é possível fazer entrar algo desse opaco e sem-sentido, onde se está aberto às contingências, ao vivo e corporal que chamamos de feminino. Esse sem medida, que não é a medida comum, está fundamentado na inexistência, a partir da qual é possível encontrar invenções que produzem satisfação.           

Garantia: sozinho e o laço

Nossa garantia implica a submissão e a subversão, pois ela coloca em jogo tanto a solidão subjetiva quanto o laço com o Outro (cf. MILLER, 2017). A formação analítica permite que quem quer que escolha esse caminho encontre soluções singulares para esse gozo opaco, trabalhe a castração do escabelo para fazer outro escabelo, isto é, fazer com isso que é opaco e que já foi cernido, um objeto de arte que é um saber dizer, um saber bem dizê-lo.

Lacan propõe a conjunção entre o passe, que é um dizer de Um sozinho a partir de seu sinthoma, e a Escola. Ele nos propõe que cada um se remeta a sua solidão e que esses Uns sozinhos – esses avulsos – se juntem, façam série, formem um coletivo fundado no amor pelo ímpar, pelo “sozinho”, para pensar e trabalhar pela existência da psicanálise como único discurso que não se toma como verdade, e, assim, para fazer existir uma lógica diferente da do discurso do mestre.

O caráter subversivo da psicanálise que supõe encarnar essa solidão, ver-se com esse Um que nos constitui – que não é o Um unificador, nem tem a ver com os Uns que encontramos em nossa época –, é nossa garantia. Mesmo que ela seja paradoxal, ao passo que não se é tolo do real, ela é capaz de desnudá-lo. Saber fazer com o real permite, ao mesmo tempo, submeter-se ao discurso do mestre e, secretamente, subvertê-lo (cf. MILLER, 2017).


Referências 

BERENGUER, Enric. Comentario de la Conferencia en Ginebra sobre el síntoma. In: Cuadernos del INES.

BROUSSE, Marie-Hélène. Lo ordinario o lo universal inexistente. Trabalho apresentado no Congresso da AMP, abr. 2018. [Inédito]

FUENTES, Maria Josefina Sota. Heresia. In: Scilicet. As psicoses ordinárias e as outras – sob transferência. São Paulo: Escola Brasileira de Psicanálise, 2018, p. 204-206.

LACAN, Jacques. O Seminário, livro 20 – mais, ainda (1972-1973). Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

___. Conferência em Genebra sobre o sintoma [1975]. Opção lacaniana. Revista Brasileira Internacional de Psicanálise, São Pauo: Edições Eolia, núm. 23, p. 06-17, dez. 1998.

___. O Seminário, livro 23 – o sinthoma (1975-1976). Rio de Janeiro: Zahar, 2007.

LAIA, Sérgio. Seminário “Desarreglos sintomáticos”. Cali, jul. 2018. [Inédito]

LAURENT, Éric. O avesso da biopolítica. Uma escrita para o gozo. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2016.

MILLER, Jacques-Alain. Un Otro que existe. Revista Lacaniana, Buenos Aires: Escuela de Orientación Lacaniana, núm. 20, 2016.

___. Questão de Escola: proposta sobre a garantia. Opção lacaniana online, ano 8, núm. 23, jul. 2017. Disponível em: <http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_23/Questao_de_Escola.pdf>

[1] Este título e este texto correspondem ao seminário realizado para a XIII Jornada da EBP – Seção Santa Catarina, “Submissão, subversão e a heresia do sinthoma”. Tradução: Diego Cervelin.

[2] “Faunético é um termo que introduz uma polifonia entre “falo”, “fonético” e “fauno” (entidade sexual e erótica). Trata-se da conjunção do falo e do fonético, que faz evocação do fauno, introduzindo a dimensão libidinal e pulsional.

[3] Isso supõe ir contra o dogmatismo e as identificações, ou seja, contra a suficiência na formação do analista.

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