O QUE AS PSICOSES NOS ENSINAM SOBRE A LÓGICA DO TRATAMENTO1 

Guillermo Belaga2
AME, Membro da EOL e da AMP
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hallucination the movement
hallucination: the movement - reginaldo cardoso

Parte I

A fim de abordar a relação entre psicanálise e saúde mental, poderíamos começar dizendo que, durante o percurso de seus ensinos, Freud e Lacan conseguiram vincular as diferentes formas do sintoma ao mal-estar na civilização de suas épocas. Seguindo de perto esses aspectos, parte-se do princípio de que a assim denominada “saúde mental” sempre se apresenta como uma totalidade falha, produto de um real que não se deixa socializar nem tampouco universalizar. O sintoma, por sua vez, surge como resposta a essa hiância, a esse limite em que os sujeitos não se assemelham – muitas vezes, a despeito deles mesmos. Nossa proposta de trabalho, nesse sentido, tentará desenvolver o par sintoma/laço social para pensar o tema do Colóquio.

Deve-se levar em conta, portanto, que a política da psicanálise transmitida tanto por Freud quanto por Lacan foi se traduzindo numa política do sintoma que sempre procurou localizar tanto o sujeito quanto os seus modos de laço social, ou seja, o sujeito dentro e fora do discurso. A partir da orientação lacaniana, entende-se que o contexto determina a forma do sintoma. Com isso, a perspectiva de localização do envoltório formal do sintoma se torna fundamental na prática da psicanálise.

Isso implica inscrever o sintoma no laço social em que ele se manifesta para, depois, seguir seu rastro até um limite e recortar o acontecimento, desvelar a irrupção que mostra que nem tudo é programável, demonstrar a repetição de uma satisfação imperiosa e sofredora. Em suma, “fazer” algo com o inconveniente de um real que não cessa de insistir para que o sujeito finalmente obtenha, no tratamento, outra forma de viver o laço social. Trata-se de uma invenção que conjugaria um novo relato de sua vida, uma outra maneira de se nomear em referência ao Outro contando com o singular do gozo.

Então, seguindo o estudo do par sintoma/laço social, para Freud e para Lacan, é o campo das psicoses que ilustra sua conjunção e disjunção. Assim, apresenta-se o que nos ensinam as esquizofrenias e as psicoses infantis, ou seja, que o laço, que a inserção no Outro não é algo dado de antemão, não é algo que preceda ao sujeito de nenhuma forma. É algo que se constrói.

Em Freud, pode-se deduzir como a esquizofrenia é o grau zero do laço social. Ele tratava o tema apresentando uma clínica diferencial das psicoses que situava o sintoma em relação ao Outro social. Desse modo, pode-se inclusive compreender a ênfase, a maior relevância que dedicou ao “paranoide”, no qual o delírio mais ou menos sistematizado implicava um laço e estava no centro de sua teoria. Por outro lado, partindo de sua energética – que, posteriormente, Lacan nomeará como real –, Freud também já apresentava um limite interno nas psicoses. A esquizofrenia, com sua fixação ao autoerotismo, presentificará isso.

Lacan, desde Os complexos familiares, de 1938, já descrevia uma clínica diferencial das psicoses. No Seminário 3, ele apresenta uma escala dos delírios, que vai desde a esquizofrenia até a paranoia, passando pelas parafrenias. Depois, até o final do seu ensino, podemos encontrar três quadros: o “esquizofrênico”, as doenças da mentalidade e a paranoia.

Até aqui, não fiz outra coisa senão apresentar um agrupamento das grandes psicoses a partir do real, da localização do gozo. Mas parece que há um produto que vem como efeito da psicanálise na cultura, porque até aqueles que, hoje, rechaçam a psicanálise também foram influenciados por ela. Beck, por exemplo, antes de propor todas as teorias cognitivas, foi psicanalista. As terapias sistêmicas também partem daí. Sempre há uma posição diante da psicanálise. Pois bem, é um efeito na cultura. É como que um sintoma na cultura; é inclusive um dos grandes sintomas do século 20, juntamente com Marx, por exemplo.

Assim, esse avanço das psicoterapias no campo da saúde mental fez com que também ampliasse o número daqueles que se consultam no campo da saúde mental. Então, começaram a aparecer nos centros de assistência, nos consultórios, os casos raros. Casos em que começa a surgir um problema em relação ao sutil do fenômeno psicótico e ao modo de como delimitá-lo. Em torno desse efeito da psicanálise no campo da clínica, apareceram os estados-limite e, por consequência, também apareceu a tentativa de Otto Kernberg – através da descrição do borderline – de mostrar que a clássica partição freudiana em neuroses, psicoses e perversão já não se sustentava e que, por fim, era preciso situar outro campo, mais amplo.

Configura-se toda uma discussão em relação ao termo “psicose ordinária” como um programa no âmbito da orientação lacaniana. Mas, antes de continuar, é preciso destacar que a psicose ordinária não é um conceito em si mesmo, mas um programa de pesquisa. Quando dizemos “psicose ordinária” – não sei bem como soa o termo “ordinária”, em português, mas, em castelhano, soa como uma má tradução, porque a palavra “ordinária” é relativa a “vulgar”, e, na verdade, as psicoses que chamamos de ordinárias, de maneira nenhuma se referem a essa conotação –, melhor seria dizer que o termo “ordinária” aponta ao que faz série, ao ordinal, preservando seu laço. Ou seja, elas não se destacam tal qual as outras psicoses por uma descontinuidade no sentido de romper o laço social. Essas outras psicoses que não fazem série são os casos extraordinários clássicos, que reformulam o campo semântico estabelecido, seja pelo agramatismo, seja pelo neologismo, seja pelos fenômenos de código e mensagem. É o caso da esquizofrenia, das parafrenias etc.

Parece que as psicoses ordinárias se situam dentro do campo semântico e permanecem dentro do campo de uma identificação. Ele, por assim dizer, os enlaça na comunidade do Outro, mas com um signo, com um detalhe que chama a atenção do clínico caso esse sujeito – que, obviamente, sofre – se disponha a procurá-lo.

Assim, surge uma definição resgatada por Jacques-Alain Miller de um dos textos principais de Lacan sobre as psicoses, que é De uma questão preliminar – uma definição que, me desculpem pelo barroco, mas é o barroco de Lacan, diz o seguinte: os sujeitos dos quais estamos falando padecem de “uma desordem provocada na junção mais íntima do sentimento de vida” (LACAN, 1998, p. 565). Ou seja, é esse detalhe que seria preciso procurar nesses casos de psicoses; não os grandes sintomas, mas um detalhe que diz respeito à “junção mais íntima do sentimento de vida” e que, por sua vez, se manifesta por meio de diferentes externalidades.

Poderíamos começar enumerando a externalidade social. Trata-se, aqui, de um problema na alienação, no modo de se referenciar no Outro, consoante às identificações. Há um problema relacionado às identificações, seja pela via negativa, quando os pacientes não terminam de se enlaçar totalmente no campo social, seja pela via positiva, como no caso das caracteropatias, nas quais os sujeitos se fixam excessivamente a uma identificação. Aí pode haver problemas clínicos e de diagnóstico diferencial, pois há pacientes que estão muito fixados ao emprego e que encontram um “nome” capaz de apresentá-los socialmente – “bipolar”, por exemplo. Quando eles perdem esse emprego, desencadeiam uma psicose.

Esse detalhe íntimo, da junção mais íntima do sentimento de vida pode se apresentar como uma externalidade social, através da identificação, mas também como uma externalidade corporal. Ela aparece com todos os fenômenos necessários em torno da questão de como se fazer um corpo. Aliás, aqui aparece uma série de questões em torno da tatuagem, do piercing. Além disso, há outra externalidade que pertence mais ao campo subjetivo. Trata-se de como diferenciar o problema do vazio que esses pacientes apresentam. Como diferenciar o vazio psicótico do vazio da angústia? Como diferenciar aquele nada que, na psicose, surge como um sintoma e reconhecer os pequenos detalhes que se manifestam nesses pacientes?

Em seguida, outra externalidade, que é aquela ideativa, que, de alguma maneira, já se apresentava quando Clérambault falava de um automatismo “êxtimo”, da síndrome de ação exterior, em forma de faixas, isolada de um mecanismo interpretativo, etc.

Então, até aqui temos o seguinte: por um lado, as psicoses extraordinárias, com um limite interno, pela forma de fixação libidinal, como dizia Freud, que, depois, Lacan toma pela localização do gozo, por uma satisfação pulsional paradoxal; por outro, de maneira mais sutil, com esse detalhe mencionado por Lacan em uma breve passagem do texto “De uma questão preliminar”, estão os sujeitos que se consultam apresentando esse padecimento no mais íntimo de sua existência. Sem dúvidas, essa frase se conecta ao problema da foraclusão. Nesse sentido, é interessante voltar a mencionar A negação, um texto muito importante de Freud que marca uma diferença entre neurose, psicose e perversão relacionada à operação relacionada ao “juízo de atribuição”, àquela Bejahung mencionada por Lacan nos Escritos.

É notável como Freud assinala um sintoma que tem a ver com os problemas do laço social e da saúde mental, relacionando-os ao tema da negação. Ele pontua que, enquanto a neurose está no campo da negação, a esquizofrenia está no campo do negativismo. Nesse texto, Freud apresenta uma instância sintomática no laço social de acordo com os tipos clínicos, vinculando a neurose à negação, a psicose ao negativismo e a perversão à denegação. É pela operação do juízo de atribuição, por sua presença ou por sua ausência, que os sintomas se inscrevem no laço social, indicando de que forma o sujeito se posiciona em relação a ele. Já para Lacan, a falta dessa operação, ou seja, do juízo de atribuição, resulta na desordem no sentimento de vida. A ausência da Bejahung se manifesta exemplarmente nos signos presentes nas diferentes externalidades mencionadas há pouco.

A importância dessas distinções não é apenas clínica, pois, segundo o que foi teorizado pelos psiquiatras, elas também têm organizado as instituições. A síndrome de ação exterior, ou automatismo mental de Clérambault, era descrita por Séglas – outro importante psiquiatra francês – como um quadro clássico que se assemelha ao aparelho de influência de que falava Kraepelin. Esse aparelho de influência de Kraepelin é a síndrome de ação exterior dos franceses. Vocês sabem que aquilo que se denomina usualmente “psiquiatria clássica” é uma disputa entre alemães e franceses. Por outro lado, na psiquiatria americana – inicialmente influenciada pela psicanálise, através de Anna Freud, de Melanie Klein, da psiquiatria de Bleuler –, já há outro problema e, por isso, as esquizofrenias americanas são as paranoias francesas.

Não é um chiste, mas também é um chiste, porque tudo isso acontece no campo da cultura. A descrição daquilo que se nomeou fenômeno elementar, síndrome de ação exterior, organizou as instituições. Ou melhor, as instituições se organizaram de acordo com o modo pelo qual os psiquiatras europeus, que antecederam as nossas atuais instituições, tomaram o fenômeno elementar, a síndrome da imposição, com sua carga de certeza e seu peso de enigma. Aliás, todo o programa da modernidade também aparece nesse período da psiquiatria clássica, como já foi demonstrado por Foucault. Quero me deter nisso, porque também penso ser importante promover uma retomada do problema da saúde mental através da questão institucional e do laço social.

Um primeiro ponto reside na maneira pela qual entendemos um fenômeno elementar, porque se vocês lerem os textos de Henri Ey, verão que, para ele, trata-se de uma definição e, então, cada termo implica que haja uma convenção de definições. Justamente porque, aí, há um real indizível. Daí que sempre convenha estabelecer uma conversação para saber, com o menor equívoco possível, do que estamos falando – especialmente no nosso caso, já que eu falo castelhano e vocês português.

Quando falamos, sempre há tradução, porque o significante e o significado estão sempre em tensão. Aquilo que comprova uma psicose é a disjunção entre significante e significado. É justamente disso que se trata no fenômeno elementar. O fenômeno elementar é como um hieróglifo. Um sujeito vai caminhando pelo deserto e encontra um hieróglifo. Até é possível saber que se trata de uma linguagem dirigida para aquele que o encontra – enquanto significante –, mas não se sabe o que ele significa. O fenômeno elementar tem essa duplicidade: o da certeza, ou seja, é uma significação pessoal, sabe-se que é dirigido para alguém; e o da atribuição subjetiva que o sujeito guarda e sabe que tem uma significação enigmática. Então, há essa certeza, mas não se sabe do que se trata. O enigma é o produto dessa ruptura entre significantes, ou melhor, entre a atribuição subjetiva e o significado, o vazio da significação.

Há um primeiro fenômeno elementar, que se pode chamar primário, quando um significante irrompe, produzindo uma certeza de que é dirigido ao sujeito – essa é a atribuição subjetiva que Lacan menciona em De uma questão preliminar –, mas ela tem um vazio de significação. Esse é o polo da surpresa e do enigma.

Toda a atual investigação sobre a psicose está concentrada nisso que se chama de significante isolado. O recorte desse fenômeno elementar primário é o que Lacan posteriormente também vai deslocar para a clínica da neurose, pois o que interessa a Lacan é o significante prévio à articulação, ao sentido. Depois, há o fenômeno elementar secundário, que se articula e dá um sentido para esses significantes isolados.

Como uma neurose chega ao consultório? Com o sentido articulado. Por isso, vou procurar explorar o que a psicose ensina à clínica da neurose, porque o neurótico padece justamente desse sentido articulado. Se não padecesse desse sentido, não buscaria uma análise.

Quando alguém vem e se apresenta dizendo “não tenho nenhum problema”, algo deve estar falhando, ou “eu quero o mesmo que antes”; nesse caso, a psicanálise descarta uma vocação adaptativa. E isso por considerar que existe um antes e um depois entre o sentido anterior – sustentado pelas significações fantasmáticas –, a ruptura e um novo sentido que é preciso inventar. O sentido encontrado na vida não vem sem sofrimento. Isso se chama, por exemplo, complexo de Édipo. Trata-se sempre de uma articulação contingente e não de um destino. O sentido do neurótico não é um destino. Aliás, a paixão do neurótico por se justificar através de significações articuladas é sua armadilha.

Em Lacan, constatamos que a clínica das psicoses ensina sobre a clínica das neuroses. Lacan produz a escansão – e o corte da sessão não é senão uma aposta em desarmar o sentido para, então, voltar aos significantes mestres que definiram a vida do sujeito. A escansão da sessão implica voltar a um significante primeiro. Daí que a clínica da psicose seja tão ensinante: ela mostra que há um significante isolado, um enigma e que isso redunda num sentido a ser construído. Diferentes sentidos podem ser inventados, fazendo mais vivível ou não um modo de gozar.

A ideia de que há um fenômeno elementar primário e um fenômeno elementar secundário para as psicoses pode ser perfeitamente traduzida na palavra delírio. Ou seja, o delírio é um fenômeno elementar secundário em relação ao primário e marca a possibilidade de estabelecer uma temporalidade no tratamento, abrindo uma brecha e é sobre ela que irão se situar as diferentes intervenções possíveis. 

Clérambault tratou justamente disso quando fazia referência ao pequeno automatismo mental e ao grande automatismo mental. O pequeno automatismo mental corresponderia ao significante isolado. Por isso, Lacan, de acordo com o momento em que seu ensino se encontrava, retomou diferentes descrições do pequeno automatismo de Clérambault. Quando, no Seminário 3, Lacan estava interessado pelo problema do sentido e do Outro ele partiu do fenômeno anidéico e, nesse ponto, o pequeno automatismo mental foi mencionado através de seus fenômenos “negativos”: a descontinuidade da cadeia, a interceptação, o roubo do pensamento.

Por que isso despertava interesse em Lacan? Porque demonstrava que o significante estava no campo do Outro, como um Simbólico prévio. Ele podia aparecer ou não, de tal sorte que o fenômeno anidéico funcionava como uma boa metáfora da subtração significante. “Anidéico” é uma característica descrita por Clérambault que, contrastante com sua interpretação posterior, produz o encadeamento idéico, o delírio. Também o pequeno automatismo se impõe com voz áfona. É uma materialidade que se impõe por fora da percepção. Isso é muito importante, porque, para Lacan, a alucinação tem dois momentos. Seguindo os passos de Clérambault, há um momento que não é senso-perceptivo, que é o que se denomina alucinação intrapsíquica. Depois, vem a alucinação senso-perceptiva, mas ela já é uma interpretação, já é um fenômeno elementar secundário.

Isso é fundamental, porque permite que Lacan sublinhe algo que Freud dizia, ou seja, que quando se conta um sonho, ele já está interpretado. O analisante, quando conta seu sonho, já o interpretou. É preciso levar isso em consideração, portanto, porque alguém, como analista, pode decidir sobre dizer ou não algo relacionado àquilo que o analisante conta. É preciso ter claro isso, porque o paciente pode supor que vai agradar seu analista contando-lhe sonhos. O sonho é um modo de se fazer querer e demandar pelo Outro. Então, às vezes, o analista se mostra interessado e, outras vezes, nem tanto, dependendo do momento da transferência, levando em conta que o sonho já é uma interpretação. Isso foi bem descrito por Miller quando falou do “inconsciente intérprete”. Qual é a interpretação do analista? É dizer algo antes que o paciente o diga. Dizê-lo antes do paciente.

Voltando às instituições, elas têm se organizado conforme seu posicionamento diante da abertura da brecha, da temporalidade do fenômeno elementar primário entre certeza, enigma, possibilidade de um segundo tempo de construção e saída desse enigma. Buscando os antecedentes históricos, quem definiu o fenômeno de “significação pessoal” foi um psiquiatra alemão, Clemens Neisser, mais conhecido pela citação feita por Lacan em seus Escritos quando menciona a “significação pessoal” como significação zero, como aquilo que faz signo para um sujeito.

Neisser descreveu justamente a certeza de ser designado a partir de fora, que provoca um efeito de atribuição subjetiva e de incerteza. Incerteza do que isso designa. Isso é muito importante, porque o psicótico realiza um grande esforço para se fazer um nome depois da perplexidade alucinatória, da fragmentação, da destruição de todas as nominações, de todas as identificações do corpo etc. Pode-se ver como o psicótico faz um grande esforço para se fazer um nome no mundo.

Como consequência de seu achado clínico, Neisser inventou uma instituição e uma terapia que chamou de clinoterapia, “terapia na cama”. Assim, algumas instituições começaram a se organizar e, nelas, os pacientes tinham que ficar deitados na cama até resolverem o enigma. Obviamente, como em toda política de saúde mental, chegou-se a alguns excessos, como nas clínicas que disputavam estatisticamente: algumas diziam que tinham 60% dos pacientes deitados na cama. Não é interessante?

A leitura sobre a certeza e o enigma era correta, assim como também o era no tocante à importância de que o paciente pudesse ser escutado por um médico naquela época, que se sentava do lado do paciente esperando que viesse um sentido. Não podemos dizer que não estaríamos de acordo com essa argumentação. O problema é que isso fez com que todo mundo tivesse que ficar deitado na cama até resolver seu enigma.

A descrição de Neisser gerou polêmicas importantes que abrangem inclusive as elaborações posteriores da psicanálise. Assim, entre as discussões, apareceu o debate transcendente com Meynert, eminente psiquiatra que foi um dos professores de Freud. Aliás, vocês sabem que Freud primeiro foi pediatra e depois neurologista, mas que não teve uma prática de psiquiatria, não teve uma prática da psicose. Freud leu as memórias de Schreber e depois outros psiquiatras lhe contavam os casos.

Freud visitou a clínica de Meynert para fazer uma prática, mais ou menos aquilo que, hoje, chamaríamos de estágio. As marcas de seu professor apareceram na adoção de dois termos clínicos importantes:  um é “delírio de observação”, que pode ser encontrado na “Introdução ao narcisismo”, e o outro é “amentia”, que Freud reformulou como “psicose alucinatória de desejo”. São dois quadros clínicos que Freud tomou como centrais em muitas descrições de sua psicopatologia.

Freud entende o “delírio de observação” de Meynert como uma síndrome de ação exterior, porque é um delírio exterior ao eu. Ou seja, o “delírio de observação” expressa que o eu tem uma instância crítica exterior, questão que despertou o interesse de Freud e que lhe foi útil para formular o “delírio de observação” como um antecedente do supereu. Portanto, seria perfeitamente possível dizer que a voz alucinatória psicótica é o supereu neurótico. Mais tarde, Lacan acrescentaria que o supereu é uma voz feminina, em conexão com a lalíngua materna.

Mas o que era esse “delírio de observação”? Parece-me que esse é um ponto importante, porque com isso se percebe que não se trata da mesma coisa na posição clínica de Freud, com suas consequências na clínica da psicose, e no ensino de Lacan, na clínica da psicose formulada por ele. Embora Lacan tenha feito uma operação clínica e política pautada pelo retorno a Freud, a clínica lacaniana das psicoses não é a mesma que a clínica freudiana das psicoses. Pode-se inclusive perceber isso justamente nas diferentes referências utilizadas em relação às escolas da psiquiatria clássica.

Meynert, na apresentação do “delírio de observação”, omite de sua descrição o primeiro passo, o fenômeno elementar primário. Ao passo que Neisser expõe o fenômeno elementar primário como uma espécie de tempo um para, posteriormente, com grande trabalho – aliás, sabemos que aí se apresenta um grande trabalho para o psicótico – alcançar o fenômeno elementar secundário. Meynert, contudo, já apresentava o “delírio de observação” enquanto articulado e isso influenciou toda a teorização clínica de Freud, por exemplo, quando sublinhava que não conhecemos nada da doença do psicótico, conhecemos da sua tentativa de cura (cf. FREUD, 2010, p. 94-95). Freud diz isso no texto sobre o caso Schreber. Dessa maneira, podemos até nos arriscar a dizer que Freud não soube ler os fenômenos do automatismo mental de que Schreber dava testemunho nas suas Memórias de um doente dos nervos. Freud não recorta os fenômenos de significante isolados no caso Schreber, coisa que, sim, fará Lacan.

Isso é fundamental, porque toda a clínica atual da psicose consiste em tentar introduzir o psicótico no laço social. Essa postura se opõe, portanto, à clínica freudiana que empurrava para uma solução delirante. Porque, ademais, o delírio psicótico é uma ruptura total do campo semântico, aspecto em relação ao qual se entende o laço social. Assim, não há que se fazer uma aposta no delírio. Em vez disso, caberia tentar fazer uma tradução do fenômeno elementar primário – a mais delimitada e abreviada possível –, porque é uma época em que o louco está absolutamente marginalizado, subjetiva e socialmente.

A maneira pela qual se estabelece um enganchamento no Outro é um ponto de interesse para se deter nas chamadas “psicoses ordinárias”, já que elas ensinam sobre como um sujeito, apesar de alguma errância e dos fenômenos de externalidade mencionados, permanece dentro de um campo semântico e consegue se sustentar nele. Essa é a ideia do sinthoma lacaniano, o “saber fazer com”, o modo de permanecer no campo do simbólico, sem cair na marginalização, enganchado a um significante-mestre que permita ao sujeito tornar sua existência legível, fazendo função e localizando o gozo no seu corpo.

 Bem, assim é possível perceber a diferença entre Neisser e Meynert. Freud, optando por seguir os ensinamentos de Meynert, chega às conclusões clínicas conhecidas. Por outro lado, Lacan se detém na descrição da “significação pessoal” e, com isso, elabora outra clínica do fenômeno elementar. Obviamente, a política institucional de Neisser provocou muitos estragos em seus pacientes, deitados durante meses numa cama! Em resposta, surgiu outro psiquiatra que quis pôr um limite nisso. Trata-se de Simon, que formulou a terapia ativadora.

A terapia ativadora antecederá todas as estratégias das terapias ocupacionais, das oficinas de trabalho, de todas as atividades atuais que se realizam com os psicóticos em nossas instituições. Simon, porém, não estava interessado no fenômeno elementar. Ele tampouco tinha qualquer ideia sobre esse assunto. Havia psiquiatras que, em geral, pensavam que o fenômeno elementar respondia a uma causalidade, sobre uma base organicista. Simon não se interessava por essas teorias. Em vez disso, promovia uma prática que tentava destruir o sintoma. Mas através de quê? Através do trabalho. Ou seja, em oposição à clinoterapia, propunha a terapia ativadora. Aliás, veja-se que também há uma tensão bem atual nisso tudo. Em que consistia essa terapia? Ela se baseava no trabalho, fruto da época em que Simon vivia, dos ideais da Revolução Industrial, do trabalho como o significante que organizava as identidades coletivas. O tratamento consistia em dar aos pacientes tarefas de complexidade crescente, de acordo com suas capacidades. E quando o paciente recebia alta? Quando quase parecia um operário.

Nesse sentido, sempre surge uma pergunta. Diante da desorganização de um paciente, alguém pode se perguntar: muito bem, como resolver essa desorganização? Então, apelamos a vários dispositivos institucionais: o hospital-dia, a comunidade terapêutica, as oficinas. O que está na origem de tais discussões é como orientar essa desorganização, responder à fragmentação, à perplexidade. Na terapia ativadora, tratava-se de uma técnica muito normatizada. Começava-se pedindo ao paciente para que faça uma peça de artesanato, um quadrinho ou que construa uma cadeirinha, que arrume uma mesa. Partia-se, assim, de tarefas mínimas. Quando o paciente realizava esse objetivo, a exigência aumentava até que chegasse a ser um “operário”. Esse seria justamente o momento da alta, da eventual saída da instituição. Em Neisser, quando se dava alta? Quando o sujeito resolvia o enigma. Simon dava alta quando o paciente era “autônomo”, ou seja, tinha-se adaptado ao ideal social.

Então, para resumir, Simon surge como uma oposição à organização institucional que havia começado com a teoria de Neisser. Longe de impor repouso forçado, promove outra instituição, vinculada à atividade. Em síntese, é preciso entender que, conforme se considera o sintoma psicótico, organiza-se a instituição. Assim, aparecem duas posições com respeito ao fenômeno elementar: enquanto uma – segundo os encaminhamentos de Neisser – tende à reabsorção do fenômeno elementar primário pelo simbólico, à reabsorção do fenômeno de perplexidade pelo simbólico; a outra – segundo os encaminhamentos de Simon – tende à reabsorção da totalidade fenômeno elementar pelo trabalho.

Atualmente, além dessas duas posições, devemos convir que há outra posição, quando, por exemplo, se tenta fazer com que a totalidade do fenômeno elementar entre na solução química. Então, teríamos as seguintes tentativas: 1) de que a totalidade do fenômeno elementar seja reabsorvido pelo simbólico; 2) de que a totalidade do fenômeno elementar seja absorvido por uma atividade; ou 3) de que a totalidade do fenômeno elementar seja absorvido pela química.

Por outro lado, Lacan demonstra que sempre há um real que irrompe sobre essas três tentativas. Ou seja, o fenômeno elementar não é totalizável, nem pelo simbólico, nem pela atividade, nem pela química. Apesar disso, sim, é preciso colocar os pacientes nas instituições para trabalhar, é preciso tentar resolver esse enigma e, obviamente, toda clínica da psicose implica algum uso de medicação.

Se hoje podemos falar do fechamento dos hospitais psiquiátricos, do tratamento de psicóticos em forma ambulatorial, de toda a estratégia ambulatorial, é porque existem psicofármacos. Todas essas estratégias têm se assentado sobre isso, não há por que negar sua utilidade. A discussão recai sobre que uso do psicofármaco será conveniente em cada caso. Por exemplo, há pouco escutava um paciente que expunha bem qual é o problema em relação ao fenômeno elementar. Vocês sabem que padecer das imposições do pensamento é um destino horroroso e que o fato de não poder sair desses pensamentos parasitários que irrompem sempre tem no horizonte de possibilidades uma passagem ao ato.

Portanto, é importante localizar de alguma maneira uma clínica do fenômeno elementar que produza uma passagem ao ato, mas que não seja uma passagem ao ato suicida. Há outros tipos de passagem ao ato ligados ao fenômeno elementar, como aconteceu, por exemplo, com aqueles pacientes cujos casos li hoje e que serão discutidos amanhã. Mais ou menos como alguém que vai à rodoviária e faz elabora um circuito que passa pela rodoviária. Isso é como que uma passagem ao ato. Pacientes que sobem em trens e vão e vêm; pacientes que fazem atos que de alguma forma configuram um esvaziamento do fenômeno elementar justamente naquilo que diz respeito ao excesso que os parasita. Mas, às vezes, esse esvaziamento do gozo implica uma passagem ao ato suicida. Essa é uma clínica preocupante.

Então, quando aparece outro horizonte da passagem ao ato? Em geral, é bastante frequente que haja uma voz injuriante no momento de maior sofrimento e, depois, ao longo do tratamento dos pacientes, parece que essa voz vai se modulando para, finalmente, terminar como uma espécie de companhia. Isso é frequente e serve para demonstrar que, no real, sempre há algo que não termina de se capturar. Essa voz que acompanha continua sendo algo que não cessa e, então, se torna uma companhia. Daí que possa ser especialmente problemático procurar uma solução química, uma medicação para reabsorver a totalidade do fenômeno. Isso pode resultar num agravamento subjetivo sério, pois essa tentativa de acabar com todas as vozes pode fazer com que o paciente caia num vazio tão grande que seja capaz de provocar uma passagem ao ato. Ou seja, é melhor respeitar essa voz que acompanha. Muitos pacientes – tenho observado isso na clínica – deixam de vir às consultas quando conseguem uma moderação da voz, porque essa voz que os acompanha é um laço social. Da mesma forma, eles retornam ao consultório quando essa voz volta a injuriá-los e a insultá-los.

Bem, a fim de ilustrar um pouco a articulação entre psicanálise e saúde mental, gostaria de comentar um caso clínico que já cerca de dez anos de tratamento no hospital. Esse paciente atualmente tem em torno de cinquenta anos e, quando procurou uma consultou, falava de algo que, para a psiquiatria, configuraria um delírio de vizinhança clássico, ou seja, os vizinhos queriam prejudicá-lo, ficavam escutando suas conversas e sabiam de tudo que ele fazia. Além disso, também tinha um signo no corpo, que era o mau cheiro. Então, na época das primeiras consultas, estava retraído, isolado na sua casa, escrevendo. Toda sua vida estava organizada com base na escrita. Escrevia um livro atrás do outro e os acumulava em seu quarto até ter pilhas e pilhas de escritos. Consultou quando tinha por volta de quarenta anos, mas tudo isso começou aos quinze anos, com uma hipocondria, com uma sensação na garganta de que não podia engolir. Aos dezoito, começou a ter um fenômeno de feminização corporal. Durante essa época, no momento em que estava se masturbando analmente, sua irmã passa por ele e ele acredita ter escutado algo sobre seu mau cheiro. Ainda por volta dos dezoito anos, abandona o colégio. Essa irrupção do real é justamente aquilo que vai condicionar seu laço social. Então, abandona a escola por causa da feminização corporal e do “mau cheiro”. Então, começa a fazer uso de bebidas alcóolicas até que, num momento, já não suporta os problemas no corpo e tenta o suicídio.

Em função disso, passa por sua primeira internação. Depois, seguindo seu gosto pela escrita, tenta estudar jornalismo. Consegue, mas, no momento de ir trabalhar, sente que seus colegas percebem esse mau cheiro e desiste. Quando chega ao hospital, organizamos uma oficina de escrita, uma atividade praticamente organizada para ele. Outros pacientes também participaram dela. Rapidamente, essa oficina deu frutos e fundou-se uma revista dessa oficina. Entusiasmado, ele distribuiu essa publicação em sua vizinhança. Nesse ponto, poderíamos destacar que a escrita serve tanto como testemunho quanto como esvaziamento do gozo. Os psicóticos escrevem para dar testemunho e também para promover um esvaziamento do gozo – uma dupla face significante-gozo.

Na oficina, ele também começa uma relação com uma colega. Para dizer a verdade, é ela quem toma a iniciativa, aproxima-se do paciente e o inicia sexualmente. Temos que aceitar que isso não é nenhuma novidade. Atualmente, as mulheres fazem isso [risos]. Aliás, é assim que se encontram os moços adolescentes, encurralados contra as paredes, cheios de medo [risos]. Bom, mas surge um laço interessante no período em que ele está com sua namorada. Seu delírio paranoico diminui e, como peculiaridade, eles contam as próprias alucinações um ao outro. Há um intercâmbio particular em que um conta para o outro as suas alucinações. Diminui a sintomatologia e parece que a vida segue sem sobressaltos até que sua parceira decide terminar a relação. É então que o paciente desaba e os fenômenos intrusivos do gozo, do automatismo mental e da feminização corporal aparecem de novo. Levando isso em consideração, é possível comprovar que as identificações horizontais imaginárias estavam sustentando seu tratamento até esse momento. Embora não fosse algo ruim, elas não poderiam ser a única solução. Trata-se de um laço identificatório, compreendido dentro daquilo que Freud mencionava ao se referir à dimensão narcisista do amor. Ela até pode ser uma solução, mas é precária – pelo menos para esse sujeito.

Posteriormente, no tratamento, começou a construir um estilo que lhe interessava. Um estilo que ele definia como “desesperança com humor”. Tomou-o de um intelectual famoso, Ciorán, dono de um grande ceticismo. Assim, afirma que seu estilo é de desesperança com humor. Depois dessa definição, ao longo das sessões, começa a constituir-se um arco temporal que sustento: no início de cada sessão, o paciente chega totalmente constrangido, oprimido pelas palavras que se lhe impunham. Aliás, vocês têm trabalhado com psicóticos e conhecem pacientes que chegam totalmente absortos pela imposição das vozes e pensamentos. Depois, no transcurso da sessão, o paciente consegue estabelecer uma ironia jocosa relacionada aos perseguidores e, então, corto a sessão, introduzindo uma escansão. Faço do tempo da sessão o mesmo arco temporal da denominada “desesperança com humor”. Assim, sessão após sessão, por anos, elas transcorrem respeitando esse arco temporal que oscila entre o peso da desesperança pelo parasitismo que não cessa e seu gênio de situar uma ironia.

O tempo da sessão parte desse mesmo arco marcado pelo estilo que ele inventa – “desesperança com humor”. Algo semelhante se estende para a escrita e ele consegue publicar dois romances. São livros em que ele fala de seus temas delirantes, do Outro perseguidor, começando pelo ódio ao pai, um ex-policial. Esse, aliás, é um dado importante, pois quando tentou ser jornalista, quis fazer jornalismo investigativo e denunciar diretamente a repressão policial. Esse modo de escrita direta, o único que ele produzia, era uma réplica terrível ao nível do delírio de perseguição. Nesse sentido, uma das intervenções foi sugerir-lhe que não fizesse jornalismo de investigação, mas que escrevesse aludindo ao problema. Então, ele inventa um personagem que é detetive e escolhe um nome que não é outro senão um anagrama de seu próprio nome. Esse detetive anda pelos bairros marginais, passa pelo seu bairro, denunciando policiais, padres, prostitutas e uma série de questões sexopatas, etc. Além disso, esse detetive também é amigo de certas personagens da cultura argentina que estão no imaginário popular, oscilando entre a oficialidade e a transgressão. Elas levam as coisas ao limite. Ele menciona, por exemplo, uma cantora de tango e um humorista muito conhecidos na Argentina.

Aliás, em torno da questão de elaborar uma escrita alusiva, indireta em relação ao Outro, cita um escritor argentino que já morreu e que se chamava Juan Filloy. Esse escritor, numa reportagem que o paciente levava muito em consideração, relatava uma estratégia que havia usado para sair da mira dos militares. Uma vez, durante a ditadura militar, foram buscá-lo por um livro que tinha escrito. Filloy então lhes disse que não era ele quem falava mal da igreja e dos militares, mas sim a personagem do texto. O paciente toma exatamente isso, esse estilo – “não sou eu, é o texto quem o diz”. É um modo de tomar distância do fenômeno elementar primário. Isto é exatamente o que me interessa sublinhar: seu tremendo trabalho sobre o fenômeno elementar primário.

Bem, para concluir, atualmente, o paciente tem desdobrado esse trabalho na web. Fez uma página, um blog e tem cerca de mil seguidores. Eles intercambiam textos e tenho lhe dito que esse é tanto um modo de se proteger quanto um modo de proteger os outros. Isso o surpreendeu e agora sente que também protege o Outro. Há um uso muito interessante da internet.

Desejo finalizar resumindo os três signos que de esse paciente padece para entender um pouco onde se articulam em ato a instituição e a pragmática psicanalítica. Quando ele descreve as vozes como “reais”, essas vozes são as chamadas “alucinações perceptivas”. Anda na rua e alguém o insulta. Essas vozes são “reais”, ou seja, na realidade, ele não dá importância a essas vozes. Depois, ele comenta muito bem que transforma essas vozes “reais” em personagens, aos quais dedica insultos, etc. Na sequência, aparecem as palavras impostas, essas sobre as quais ele diz haver “alguém [que] está trabalhando na minha cabeça”. Isso é o que chamaria de fenômeno elementar, no sentido mais enigmático e impositivo. Também é aqui que encontramos a pista da “desesperança com humor”. Ou seja, quando se trata de fazer disso um efeito da “desesperança com humor”. E, por último, o ponto em que nada do simbólico consegue dar um tratamento ao real é aquele do “mau cheiro”. Esse ponto tem a ver com o mais real do corpo. Não há nenhum trabalho institucional, nenhum tratamento do simbólico que consiga reverter o desenganche do paciente. Esse fenômeno parasitário e excessivo surge como um limite à psicanálise.

Bem, agora quero conversar um pouco com vocês.

[Aplausos]

Respostas de Guillermo Belaga às perguntas do público

Agradeço pelas perguntas, porque queria falar disso. Em relação ao que Fátima apresentava, a psicanálise pensa o laço social construído a partir do impossível. Os discursos, na psicanálise, têm um impossível. Os quatro discursos de Lacan estão construídos a partir desse impossível. Ou seja, a ideia do laço social, na psicanálise, não tem a ver com o vínculo, com o grupal em termos de “agrupamento’. Isso não é laço social para a psicanálise. É antes uma construção a partir do impossível. Aparece sempre uma teoria de Lacan situada a partir do impossível. Trata-se do dizer sobre um indizível. Trata-se da decisão sobre um indizível. Há um ato e, depois dele, sabe-se algo. Antes do ato não se sabe totalmente.

É o que apresenta Lacan quando fala do tempo lógico, em oposição ao utilitarismo. Parece-me inclusive que a teoria da adaptação tende a um utilitarismo. Todos os algoritmos “decisionais” que aparecem no DSM tendem a estabelecer um “para todos”. Para cada transtorno, ou melhor, antes, existiriam umas espécies de árvores de decisão para definir cada transtorno e, tendo obtido a definição de qual seria o transtorno no DSM, implementa-se uma resposta terapêutica “justa e eficaz”. No entanto, sabe-se que a única coisa que isso produz é a angústia do praticante. Porque, em geral, o paciente foge dos algoritmos “decisionais”. O sujeito não se encaixa nas normas preestabelecidas desse “para todos”.

Penso que o primeiro ponto para a psicanálise – e, por isso, queria, logo de entrada, salientar bem essa questão – está em situar qual o limite interno ao problema da psicose para, posteriormente, situar os limites externos. Qual é o grau zero do laço social? A esquizofrenia. Então, como se constrói? Trata-se de estar mais perto de Neisser, mas sem o delírio de todas aquelas camas com todo mundo deitado. Situar, sim, a ideia de uma instituição que acolha o real e que, a partir disso, possa construir normas e regras sempre em função da necessidade de incluir um fora do sentido, algo que a norma nunca vai abarcar totalmente. Trata-se de, então, entender que talvez não existam as instituições, senão uma a uma, além de sempre estar disposto a revisar as normas e regras segundo esse real que irrompe de vez em quando.

Nesse sentido, Freud falava que, quando há um retraimento libidinal do mundo para, depois, ela retornar, na esquizofrenia, ela retorna no corpo e na alucinação. Já na paranoia, ela retorna sobre o Outro. Esse é o problema, porque, às vezes, ao longo do tratamento, pede-se ao esquizofrênico que delire. Isso só faz com que o esquizofrênico se zangue conosco. Porque é como demandar algo que o limite de sua organização libidinal não permite. É necessário saber que, quando se está perguntando algo ao esquizofrênico, o problema é o corpo e o laço com essas vozes. É aí que se dá o laço social. Então, há uma ética diferente a situar – o que não quer dizer que o esquizofrênico não tenha que ter instituições, que não tenha que ter ajuda social. Não entro nessa discussão, porque é uma discussão que não serve para nada. É uma perda de tempo.

Seria discutir, como diz Freud, o narcisismo das pequenas diferenças. Não discuto que o psicótico necessite de instituições. Discutamos as normas e as regras das instituições. Concordo em discutir questões presentes como na pergunta que Vanina me fez, ou seja, sobre quando se dá a alta a um paciente. Parece-me que a psicanálise apresenta mais o problema das entradas e saídas dos tratamentos. Assim, a ideia de que o psicótico deve ser atendido durante muito tempo se opõe à posição da orientação lacaniana, pois a ideia seria que, quando o psicótico começa a funcionar, deve-se atendê-lo pouco. Quando o psicótico consegue estabelecer esse laço com seu corpo e nomear algo do seu corpo, nomear algo de sua voz de modo que ela o acompanhe pacificamente, é melhor deixá-lo funcionar, porque se sabe que qualquer quebra é “disruptiva”. Essa, então, é uma saída, mas até quando? Até uma nova irrupção, porque até o delírio mais bem construído é um delírio parcial. Lacan diz isto: todo delírio é um delírio parcial.

Esse ponto carrega uma série de questões em torno do final de uma análise. Poder-se-ia ir de um lado a outro e situar que, quando Lacan diz que o passe é a história que nós nos contamos, ela é a história que, nesse momento, satisfaz. É a última? Não, não é a última história que nós nos contamos. Não existe o passe perfeito, porque se sabe que há algo fora do sentido. Lacan, em sua última teoria do passe, diz que é uma historização sobre uma verdade mentirosa. Bem, é isso. Há algo que em algum momento irrompe e desorganiza. Isso também se aprende com a psicose. Então, me parece que o problema da alta passa por isso. Acho também que é preciso pensar em entradas e saídas diferentes na neurose, entradas e saídas diferentes na psicose e instituições de acordo com isso.

Em relação ao que Teresa apresentou sobre a passagem ao ato. Para que seja uma passagem ao ato, deve haver algum tipo de esvaziamento do gozo. Ou seja, toda passagem ao ato, por definição, é um esvaziamento de gozo. Não se trata de um fato com valoração social. O esvaziamento do gozo pode se dar na escrita, através de um pequeno gesto ou do grande ato homicida. Isso em termos do esvaziamento do gozo. Claro que há uma sanção social diferente diante de uma coisa ou de outra. Há passagens ao ato que passam despercebidas para os outros. Mas ainda há o grande ato homicida ou, por exemplo, a tese de Lacan sobre Aimeé mostrando que o delírio de autopunição faz com que a paciente agredisse a dama que era objeto de seu delírio. Com isso, ela conseguiu se acalmar e, então, o delírio desapareceu.

Tenho a impressão de que, nesse ponto, há algo para decidir, porque, como dizia uma paciente do Ateneo [apresentação de casos clínicos do hospital] de quem me lembro agora: “não suporto mais ter a cada minuto, a cada segundo essas vozes martelando na minha cabeça. Não quero esse destino”. Essa frase tem um horizonte de passagem ao ato suicida. Então, há algo que deve ser feito. É preciso apostar em uma significação diferente, mas também internar, usar medicação, etc. Convenhamos que qualquer esvaziamento do gozo é uma passagem ao ato. Ou seja, o ato analítico, por exemplo, é um esvaziamento do gozo. Se é um ato, é um esvaziamento. Como devemos lidar com isso? Aí me parece que há uma decisão que fica do nosso lado. Se se tratar de um esvaziamento do gozo que, por sua vez, também se faz visível ao sujeito do laço social, nós o sustentamos. Mas diante da dimensão da passagem ao ato suicida não podemos ficar indiferentes. Há algumas posições um pouco canalhas que se colocam dizendo que “se esse é o desejo de alguém...”. Eu não sustento essas coisas.

Parece-me que, como primeiro ponto, se é um ato, é um esvaziamento do gozo. Então, há um ponto onde a gente sustenta isso como esvaziamento do gozo. Aí é preciso decidir em relação a uma ética social, porque, na verdade, o ato homicida e o ato suicida têm um mesmo estatuto de esvaziamento de gozo que escrever.

Provavelmente, eu retome alguns desses pontos amanhã. Miller inventa e propõe o termo “psicose ordinária” em função de certa discussão sobre o problema do borderline. A generalização do borderline leva a muitos debates, porque muitas psicoses eram diagnosticadas como borderline, do mesmo modo que, antes, nos Estados Unidos, muitas histerias eram diagnosticadas como esquizofrenias. Tudo girava sobre o problema do corpo.

A psicose ordinária é um programa de investigação sobre a psicose. Não é um conceito. Não quer dizer que haja psicoses ordinárias, esquizofrenias, parafrenias, paranoias. Se são psicoses ordinárias, são psicoses e, se são psicoses, também sua ponte segue sendo a psiquiatria clássica e a psicanálise. Por exemplo, encontramos retraimentos do corpo que estão descritos na psiquiatria clássica. Encontramos falhas no laço social perfeitamente descritas, não como na apresentação do quadro da esquizofrenia, mas em relação a certos traços, sobretudo quando a externalidade é corporal. O mesmo acontece com os automatismos mentais. Quando falamos de psicoses ordinárias, devemos seguir nos orientando pela psiquiatria clássica, porque o que orienta a clínica da psicose, na psicanálise, é a psiquiatria clássica. É o que Lacan diz sobre a envoltura formal do sintoma. A fidelidade a essa envoltura formal é o verdadeiro rastro clínico. Chegando a um limite, invertem-se os efeitos de criação. O sintoma segue sendo igual, mas o que acontece é que a psicose ordinária é outra volta sobre a envoltura formal do sintoma, mas sem deixar de ser psicose. Aí entra outra discussão, na qual não há um acordo se as psicoses ordinárias seriam pré-psicoses ou desencadeamentos. São várias discussões. Eu penso que são desencadeamentos, psicoses desencadeadas.

Porque o vazio dessa psicose não é o vazio histérico da angústia. É um vazio não dialetizável, um vazio de certa fixação que comentávamos hoje: em alguns casos se observa que há um certo ponto do laço social em que se atinge um limite e, nesse limite, há um ponto de retraimento concreto. Então, há essa externalidade social que tem a ver com identificações muito fixas e não dialetizáveis. A cultura do piercing, da tatuagem vem das psicoses ordinárias. Só depois, ela foi adotada pelos neuróticos. Ou seja, o piercing e a tatuagem são modos que o psicótico encontra para se fazer um corpo. Depois, elas passam a ser moda e não o contrário. Claro, estou de acordo que quem tem uma tatuagem ou um piercing não é um psicótico ordinário. Mas vemos operações sobre o corpo e tomando por base a definição de Lacan (2007, p. 64) segundo a qual não se é um corpo, mas se tem um corpo, isso quer dizer que o corpo é sempre exterior ao sujeito.

Uma paciente neurótica contava um sonho muito impactante sobre esse ponto. Gosto da história porque ilustra bem o problema. É uma paciente que passava por conflitos no matrimônio e tinha tido um encontro amoroso com um amante. Por uma questão superegoica, tinha decidido desfazer-se de alguma forma dessa contingência. Então, tem um sonho onde vai dar andamento a um trâmite. Ela tem um estilo muito formal, com pastas, etc. Uma mulher a recebe e lhe diz: “você tem a foto 3x4?”. Então, a paciente mostra a foto, mas a mulher lhe diz: “esta é uma foto nua”. Então, ela olha e, na foto, não está seu rosto, senão todo o corpo nu numa posição erótica e ela pensa: “como que eu faço para enquadrar meu rosto? Porque, ao recortá-lo da foto, ele ficava muito pequeno. Então, o que faço é apresentar uma foto 3x4 com a cara da minha mãe jovem”.

Evidentemente, por mais que se trate de frear a contingência, o corpo sempre responde de forma erógena. O gozo insiste e, na histeria, percebe-se como isso excede seu narcisismo. A tatuagem, o piercing ou qualquer brilho fálico – porque, nessa série, eles também entram na neurose – não conseguem cobrir tudo, fazer um corpo, mas, na psicose, não. Na psicose, vê-se que isso faz um corpo.

Para seguir um pouco mais com o problema do S1 isolado. Aliás, a questão da clínica da neurose e da psicose era o S2 se articular ao significante isolado. Se ele é o Nome-do-Pai, entra no campo semântico da neurose; se ele não é Nome-do-Pai, é metáfora delirante. O Nome-do-Pai é a metáfora sobre a operação do gozo materno. A metáfora delirante é uma metáfora que estabiliza algo da irrupção do gozo do Outro. Essas seriam a neurose e a psicose. Pai positivo, pai negativo [aponta para o quadro]. Qual é o problema das psicoses ordinárias? Que agora – e é isso que Lacan apresenta – o Nome-do-Pai é um significante, mas pode haver outros. É a pluralização dos significantes que pode funcionar.

Não é psicose generalizada, psicose é psicose. O termo tem a ver com a foraclusão generalizada. O que isso quer dizer? Que há um real que não se captura. Então, tudo que construímos em relação a esse real, já é um delírio. É por isso que Lacan começa a falar de delírio generalizado. Ou seja, o Édipo é um delírio generalizado, mas não é um delírio psiquiátrico, porque entra em um campo semântico no qual parece que todos nos entendemos. Mas não deixa de ser um laço social relacionado ao impossível. Então, agora, esta é a ideia da foraclusão generalizada: a ideia de que há um real que não se captura, porque Lacan, antes, pensava que isso era possível.

Vocês conhecem o Esquema R presente em De uma questão preliminar. Nele, há dois triângulos, um imaginário e outro simbólico. O real está preso entre o imaginário e o simbólico. Ou seja, há uma ideia de que há um real que ou está por fora ou está preso entre o imaginário e o simbólico. Depois, Lacan começa a perceber que há uma disjunção entre sentido e real. Inclusive chega a pensar que a psicanálise pudesse ser uma escroqueria e fala nestes termos, ou seja, que, às vezes, se pode falar, tagarelar – como aparece no Seminário 20 - e nunca capturar um real. Então, essa é a ideia da sessão analítica variável, porque a sessão analítica clássica parte da noção de que o simbólico pode capturar o real em sua totalidade. A ideia do tempo variável é a da irrupção do real, da surpresa, do que desorganiza. 

Parte II

Ontem falávamos da questão tanto do fenômeno elementar primário quanto do secundário. Parece-me importante esclarecer que esse fenômeno elementar é usualmente pensado enquanto fenômeno mental, relacionado ao caráter ideativo, muito embora ele também diga respeito ao fenômeno corporal. Às vezes, na clínica, nos damos conta de que, nas psicoses, ocorrem atos impulsivos que não têm nenhum relato. São passagens ao ato diante das quais o clínico fica absolutamente surpreso, sem saber qual é o diagnóstico ou a causa desse impulso. Esse pode ser inclusive um exemplo da manifestação de um fenômeno elementar corporal.

Clérambault descreveu o automatismo mental do ponto de vista ideativo e também daquele corporal. Então, vale destacar que a exterioridade que lhe é característica é mental e corporal. É isso que chama a atenção de Lacan quando destaca essa síndrome na condição de envoltura formal do sintoma, na medida em que o fenômeno elementar se apresenta numa exterioridade ao sujeito. Nesse sentido, o automatismo mental tornou-se mais conhecido em sua faceta ideativa, mas o corpo também se mostra como um problema, como uma exterioridade para o sujeito.

Desse modo, localiza-se o fenômeno elementar primário isolado e um sentido. Como mencionei anteriormente, poderia ser um fenômeno no corpo, mas também um fenômeno estritamente mental. O termo automatismo mental dá muita ênfase ao aspecto ideativo, mas ele também inclui as questões do corpo. Na sequência, apresenta-se o problema da articulação com um fenômeno elementar secundário.

O fenômeno elementar primário faz referência ao fenômeno em que o significante se encontra em disjunção ao significado. Por isso mesmo, ele se apresenta através da certeza de que está dirigido ao sujeito e do vazio de significação, que faz enigma. Isso se dá ao passo que algo parte do simbólico, daquilo que “banha” o infans. Há um significante que lhe é dirigido, implicando para o sujeito o sentimento de que ele “é falado”. Se alguém tem a certeza de que isso lhe é dirigido, então, trata-se de um simbólico. Embora seja dirigido, como não está articulado, trata-se de um simbólico incomunicável. Assim, é possível perceber que, em Lacan, sempre se está no simbólico, mas pode acontecer que ele seja incomunicável, pelo menos até que um sentido se articule. Ou seja, também há esse nível do significante isolado que se impõe ao sujeito – um simbólico incomunicável.

No Seminário 20, Lacan vai retomar esse ponto através de lalíngua, do enxame que, em francês, é homofônico ao S1. Com isso, já não se faz referência exatamente ao S1 isolado, mas a uma série de S1 não articulados. Daí que apareça uma outra concepção, uma mudança, porque, no começo do ensino de Lacan, o simbólico estava articulado. O simbólico era articulado. A formalização existente até esse momento, o Esquema R presente em “De uma questão preliminar”, indica um simbólico totalmente articulado.

Mais tarde, aparece já mais problematizada a articulação com um S2, não como um passo estabelecido de entrada, senão como uma possibilidade e, então, aparecem tanto um simbólico incomunicável quanto uma passagem para um outro comunicável. A concepção anterior era a de que isso se articulava de entrada. Essa era a ideia de Lacan, quando considerava que o Outro preexiste ao sujeito. Desse modo, as estruturas clínicas eram estabelecidas de acordo com o lugar que cada um tinha no Outro. Essa é a teoria do primeiro Lacan que está no Seminário 3, em De uma questão preliminar. Quando o Outro preexiste ao sujeito, quer dizer que já há um Outro articulado, construído. Por outro lado, é preciso destacar que também existe um simbólico incomunicável. Não há um Outro, uma vez que esse Outro se constrói na articulação. Assim, esse simbólico incomunicável não é um simbólico com laço social.

Com isso, descortina-se a temática do laço social – e prefiro falar do laço social e das instituições em vez da saúde mental. Se falamos do laço social e da instituição, fica evidente que cada um passará do simbólico incomunicável para aquele simbólico comunicável, um por um, ao modo de cada um, como invenção. Volto a dizer, quando o S2 coincide com o Nome-do-Pai, parece que todos nos comunicamos, como se nos entendêssemos.

Mais um pequeno passo. Os significantes mestres não articulados, “em enxame”, assim como eles aparecem no Seminário 20, indicam uma indiferenciação dos significantes mestres, ou seja, que, em síntese, nenhum deles é significante mestre. É depois que um desses significantes passa a ser um S2. Quando Lacan (1985, p. 190) diz que o inconsciente é uma elucubração de saber sobre lalíngua, não é que o S2 venha do “exterior”, senão que ele é um desses significantes mestres que passa a ser um S2. Nessa operação, reside precisamente aquilo que se articula, ou seja, a possibilidade de invenção, a mudança de sentido da qual que se padece nas neuroses. Por isso, a escansão da sessão analítica é uma espécie de aposta em uma nova elucubração de saber sobre lalíngua, em um S2 que faça “sair do destino”.

Lacan tem muitas maneiras de formular um simbólico articulado, comunicado. Uma das primeiras veio através do Esquema L, da articulação imaginária e simbólica. O eixo imaginário existe na medida em que existe uma linguagem capaz de articulá-lo. Imaginário e simbólico se articulam. Assim, poderíamos dizer que o S2 é equivalente desse esquema. Os discursos também são um modo de simbólico articulado. Por isso, falamos das psicoses como fora do discurso, do problema da esquizofrenia como fora do discurso. Esse problema da esquizofrenia passa justamente por esse grau zero do laço social, pelo fora do discurso, pelo ponto a inventar.

Então, se dizemos que, do lado não comunicável, está esse simbólico, também há um gozo não articulado, não localizado, que, posteriormente, se localiza no objeto a. Isso quer dizer que a organização do discurso articula, ou melhor, promove uma articulação do sentido e uma localização do gozo. É o que se vê na psicose. Parte-se da fragmentação do corpo, da desarticulação, do agramatismo da linguagem.

Diante do esquizofrênico, percebe-se que há uma desorganização da linguagem, um agramatismo, um recurso ao neologismo, uma imposição do pensamento – todas as dimensões que estão como que fora do discurso. Por sua vez, juntamente com esse agramatismo e esse recurso ao neologismo, também há linguagem de órgãos, por assim dizer. Há fragmentação corporal. Assim que um esquizofrênico organiza um discurso, ele também organiza seu corpo. Aliás, é pouco comum falar de estabilização esquizofrênica em que essa estabilização ao discurso continue se fazendo acompanhar pela linguagem de órgãos. Em geral, o que se percebe é que a organização do corpo segue no mesmo sentido que a organização da linguagem.

A psiquiatria lê separadamente esses signos, toma-os como diferentes sintomas sem articulá-los numa lógica, numa temporalidade libidinal. Isso também pode se verificar exemplarmente no autismo, nas psicoses infantis, como no caso clássico do Seminário 1: “ O lobo! O lobo!” (cf. LACAN, 2009, p. 122-145). Nessa passagem, Lacan menciona uma criança cujo estilo correspondia às psicoses infantis não passivas, de agitação motora. Não ficava quieto nem um minuto, ia, vinha, corria por todos os lados. Sabe-se o cansaço que esse tipo de sintoma produz nos terapeutas. Depois, esse menino consegue articular duas palavras: Roberto-Não Roberto. Ou seja, trata-se de uma estabilização, de um transitivismo com o espelho. Em síntese, assiste-se à construção do estádio do espelho. É justamente nesse momento, quando ele articula esses significantes, que o sintoma corporal acalma. Leiam o historial e vocês perceberão isso. Mas o que esse caso nos ensina? Que o fenômeno elementar, na esquizofrenia, pode ser mental e também corporal. Esses S1 também são signos no corpo e aquilo que organiza é um simbólico articulado, ligado mais ao imaginário. Daí que o S2 não seja apenas discurso – discurso entendido como “palavra” –, pois o S2 também pode ser uma articulação do corpo, um sentido no corpo.

Isso vale tanto para o imaginário do corpo na esquizofrenia quanto para o delírio, porque o delírio é uma imaginarização simbólica. O delírio paranoico é um efeito da imaginarização simbólica. O delírio paranoico é uma grande imaginarização simbólica, porque não se dá sem a imagem do Outro, não se dá sem o estádio do espelho. Por isso, é tão importante que se pense que, na psicose, o S2 pode estar subsumido ao imaginário. Gosto do que Miller escreve assim. O S2 é imaginário e simbólico – ou imaginação do sentido.

Assim, pode-se destacar duas maneiras de intervenção nas psicoses: uma é intervir sobre o significante isolado, construir um discurso, construir um corpo, dependendo do modo que se apresente uma estrutura clínica. Seria uma intervenção sobre o enigma.

Como evitar a passagem ao ato? Há uma intervenção em relação a esse nível do incomunicável. Mas, depois, também há uma intervenção sobre o sentido. Muitas vezes, discutimos sobre isso em alguns casos, mas trata-se de algo que está mais no plano da distância em relação aos outros.

Ontem comentavam comigo, em supervisão, um caso que estava regulado pela distância em relação aos outros. Quando um outro se aproximava muito, o sujeito se sentia invadido. Isso fez com que eu me lembrasse da temporalidade schreberiana – a distância que oscilava entre o “eu” de Schreber e “Deus”, lembram? Se Deus se distanciava muito, Schreber caía na catatonia. Se Deus se aproximava muito, Schreber era invadido pela voluptuosidade.

Nesse caso, trata-se, então, de um trabalho sobre o sentido, porque, nele, o delírio místico, fantástico, parafrênico já está articulado. Aí já há algo que está articulado. Diante disso, cabe intervir modulando, pacificando, postergando, realizando convenções sobre o par articulado, sem promover uma expansão do sentido. Trata-se, enfim, de uma imaginarização em relação ao mais limitado do sentido, de tal sorte que ele fique delimitado ao que já foi articulado, a um enganche vivível com o Outro. Coisa diferente são as frases incompletas de Schreber, que estão mais próximas daquilo que se dizia sobre o enigma, sobre o incomunicável.

Miller tem essa genialidade de poder explicar a última clínica de Lacan com os matemas da primeira clínica. Parece-me inclusive que isso é algo importante para levar em consideração na transmissão. Porque, se começamos pela clínica borromeana, apenas nos enredamos e acabamos enforcados. É preciso falar com os pacientes e investigar qual é o momento de cortar uma entrevista, o que é importante e o que não é em uma entrevista, quais são os significantes que traçam um destino, quais são os significantes que um paciente usa para nos seduzir. Nisso, a clínica borromeana não nos orienta. Sabemos que a maioria das entrevistas que sustentamos serve para indicar em que ponto se deve cortar uma sessão, onde entender que está o mais importante e o menos importante.

Agora, vejamos o problema da instituição. Todo o problema do institucional na modernidade, ou seja, das instituições de saúde, de educação, judiciais e do estado de bem-estar, é que são instituições que tentam garantir e distribuir o gozo para todos. Tentam educar, garantir saúde, promover justiça. A “família” também está construída desse modo e é por isso que o mito edípico aparece enquanto lei de um pai que, de alguma maneira, podia dizer não e estabelecer uma distribuição equitativa do gozo.

A emergência de um novo discurso mestre, encarnado pela técnica e por aquilo que Lacan chamou de discurso capitalista, produziu um efeito de disrupção, de queda de todo esse programa institucional, incluindo aquele da família. Então, agora, as instituições tentam fazer aquilo que as famílias não podem mais fazer Como consequência, nos damos conta de que não há adicto sem instituição, não há criança sem instituição, não há psicótico sem instituição.

Achei interessante aquilo que vocês comentavam em relação às pessoas que, por não terem endereço, não recebem tratamento no Centro de Atenção Psicossocial, no CAPS. Isso é muito interessante porque há um discípulo de Canguilhem, que foi citado pela manhã, Guillaume Le Blanc, que publicou um livro chamado Vidas ordinárias, vidas precárias. Para esse autor, as vidas ordinárias – por isso, digo que, em francês, esse termo tem outro sentido; esse termo, “ordinário”, é polêmico em espanhol – são aquelas que têm a possibilidade do par alienação-criação. Isso quer dizer que as vidas ordinárias, comuns, são as que têm uma inscrição no Outro social e estão sob algum significante, na lógica da alienação-criação. Estão dentro de um discurso. As vidas precárias são aquelas que tampouco conseguem ingressar nessa inscrição social. Ou seja, elas não têm a possibilidade de uma alienação. Então, é nesse ponto que as políticas de saúde mental falham, porque elas são políticas que estão dentro de um discurso.

O que acontece com o significante isolado? Aquele que se encarna no corpo, sob as instâncias do social. Lacan, nesse ponto, concorda com Freud. Em Psicologia das massas e análise do Eu, Freud marca que, enquanto elabora sua análise do conjunto da comunidade, ele também se refere ao tratamento do neurótico (FREUD, 2011, p. 14). Le Blanc, que é um sociólogo contemporâneo, propõe uma versão do par alienação-separação, estabelecendo uma posição subjetiva anterior. Mas é certo que essas vidas precárias se constituem de indivíduos que primeiro têm que ingressar em algum modo de alienação, para depois poder fazer algo criativo com suas vidas.

Essas colocações são interessantes, porque mostram que há um salto quando se pensa que todo o simbólico está articulado, que todos os pacientes que recebemos estão sob esse discurso articulado. Um salto se apresenta nessa época em que há violência, passagens ao ato, impulsões, etc. Diante disso, também é necessário definir o que é uma instituição, porque uma instituição predefinida faz parte dessa tradição de pensamento segundo a qual o simbólico está articulado. Há algum tempo, definíamos uma instituição de antemão. É como quando falavam do Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas, do CAPS-AD: “começamos com crianças e adolescentes, mas, como não havia muita procura, ampliamos o atendimento a adultos”.

É evidente que, aí, há uma certa ideia do risco. Na medida em que as instituições passam a ser um substituto da família, começam a aparecer as figuras em risco – mulheres em risco, adolescentes em risco, crianças em risco. Com isso, também começa a se construir cada instituição de acordo com aquilo que se define como risco – aliás, esse termo, “risco”, então passa a ser um problema de biopolítica.

Lacan nos ensinou que construir uma comunidade requer que façamos um duplo percurso. Sempre existe uma regra semântica que instauramos e, em torno dela, constrói-se uma comunidade de vida. Então, toda instituição tem sua regra e, ao mesmo tempo, ela também tem um modo de conversação que constrói uma comunidade de vida. Não há regra sem uma comunidade de vida, em termos de uma conversação. Por que digo isso? Porque os que moram na rua têm regras e formam uma comunidade de vida. Sempre há regras e comunidade de vida. Até pode ser que isso nos pareça terrível – ou seja, que alguém more na rua –, mas a ideia é que existe a instituição da rua e, às vezes, vemos que há pessoas que resistem a sair dessa instituição. Então, vamos encontrar tantas instituições quantas forem as regras e as comunidades de vida. Há um discurso que organiza os corpos e os modos de gozar conforme cada comunidade.

Respostas de Guillermo Belaga às perguntas do público

O conceito de desinserção, em Miller, está ligado a um simbólico incomunicável. Laurent faz um estudo dos programas institucionais e destaca como essas instituições se formulam a partir da lógica do pai. Porque as instituições da modernidade estão organizadas a partir dos textos de Freud, como Totem e tabu e Psicologia das massas e análise do eu. Onde podemos ver isso? Bem, quando, por exemplo, no CAPS-AD, há um ideal da abstinência e fracassa-se na recaída. Tudo está organizado em função de um ideal, assim como em Psicologia das massas e análise do eu. Há toda uma organização que fracassa e fracassa porque sempre há um real que irrompe. As grandes instituições freudianas (o exército, a igreja etc.) são regidas por um ideal comum. É preciso ler conjuntamente Psicologia das massas e análise do eu e Totem e tabu, porque é a lei do pai que distribui o gozo. Então, o assassinato do pai primordial organiza o gozo de uma comunidade. Isso seria a ideia da instituição modelo. Uma lógica do todo. Nesse ponto, poderíamos seguir a lógica da sexuação de Lacan, do lado do para todos, mas também poderíamos começar essa argumentação pelo lado do não-todo e da exceção. Seria possível, também, começar uma argumentação por esse lado, justamente nessa época em que o Outro está fragmentado, em que o Outro está em falta, porque há diferentes regras etc.

É aí que há uma relação a ser articulada com o real e esse modo de articulação se dá no um por um. Trata-se de uma clínica muito interessante, porque, dessa maneira, isso também inclui a neurose e, por isso, também justifica nossa investigação sobre o desejo do analista, sobre o que é um analista e sobre o que é o passe. Porque cada Analista da Escola, cada AE, é o resultado do que ele explicou em sua passagem da tragédia à comédia. Pela particularidade do relato. Há testemunhos de AE de que algumas pessoas gostam e outras pessoas não. Está bom assim, porque não se trata de algo coletivizável. Em alguns uma solução ressoa mais e, em outros, ela resulta indiferente. Algo parecido acontece com o desejo do analista.

Não há “o” desejo do analista. O desejo do analista se dá, também ele, no um por um, porque o desejo do analista se constrói sobre a própria tragédia e na relação de cada um com a psicanálise. Analisamos a partir de nosso próprio furo. Por isso, temos que fazer análise, porque, primeiro, é preciso resolver as próprias urgências antes de resolver as dos outros. Nesse mesmo sentido, parece-me que um exemplo clínico que coloca em discussão esses programas institucionais está nas chamadas patologias duais, nas patologias que combinam psicoses e toxicomanias. Não sei como são chamadas essas patologias duais por aqui. A co-morbidade, ou seja, pacientes que podem ter mais de um diagnóstico pelo DSM.  Nós temos feito uma pesquisa sobre as “urgências subjetivas” no hospital e percebemos que 30% dos pacientes que chegam, caso nos guiássemos pelo DSM, receberiam mais de um diagnóstico.

Quando fazemos um diagnóstico, ele serve para nos orientar em relação aos ditos do paciente, em função de seu caso: se é neurótico, psicótico ou perverso. Isso também orienta os ditos do praticante. Imaginem que se, no DSM, temos um, dois, três diagnósticos, como se orientam os ditos? Fica claro que isso não interessa. O que interessa é medicar o paciente.

Sabemos que uma combinação frequente da época é a psicose e dependência química, a toxicomania. Esses pacientes têm um problema ligado ao lugar onde se tratam. No CAPS II, ou no CAPS ad? Em geral, há um consenso de que é preciso tratá-los no CAPS II, porque os CAPS ad têm ideais muito rígidos. Digo isso, tendo escutado a experiência da mesa anterior. O modo de abordar o problema do alcoolismo e das toxicomanias está ligado a ideais muito confrontadores. O caso de Alcoólicos Anônimos ilustra isso. É uma igreja. As pessoas começam o grupo com uma oração – aliás, é possível reconhecer em suas origens um ideal do protestantismo. Esses pacientes, cada vez mais, estão sendo enviados para as instituições psiquiátricas. Mas o que acontece? O problema é que consomem, então também trazem problemas para regras dessas instituições. Outra forma de pensar sobre esse tema está no modo como se pensa, na psicanálise, a toxicomania e os inclassificáveis. Em vez de pensar no par dependência química-transtorno psicótico, como seria no DSM, pode-se pensar com uma ideia de toxicomania-inclassificável.

O que é o inclassificável? Vocês sabem que se trata de um programa que Miller propôs sobre as psicoses. Primeiro, começou com um Colóquio sobre o inclassificável e, depois, continuou com outra conversação sobre as psicoses ordinárias. Mas é o mesmo programa, não se pode fragmentar esse programa de investigação da psicose. O inclassificável é o não articulado. É um S1 e um S2. Os inclassificáveis são esses sujeitos que padecem do S1 isolado, mas que fazem articulações de um modo diferente, que não é pela via do Nome-do-Pai. Eles articulam esse S1 de um modo que não entra nas classificações clássicas. Se partirmos da ideia de que o significante e o significado estão em disjunção, ou seja, de que há algo que não vem articulado de entrada, também o gozo – e sempre que se fala do gozo, fala-se do corpo – não vem articulado com o Outro.

Não há programa de computador que defina como a mulher e o homem devem se relacionar. É o que Lacan denominou de “não há relação sexual”. Nessa articulação sempre há um vazio. O articulador pode ser o falo, pode ser o Nome-do-Pai, pode ser o amor. Também se percebe que essa conjunção pode ser por rotina ou por invenção. O inclassificável sempre parte de uma clínica da disjunção sobre o real. É partir do precário, do significante isolado, do que irrompe, do que não tem sentido. Encontramos operações de conexão via falo, via amor, via o Nome-do-Pai.

Miller, nos últimos anos, tem se detido sobre o problema da disjunção do sentido e do real. Disse inclusive que o problema entre sentido e real foi um impasse de Lacan. Então, Lacan tentou diferentes articulações, por exemplo, através do sentido gozado. O sentido gozado é um modo de dizer que há uma articulação entre sentido e gozo. A clínica borromeana é um modo de tentar uma solução entre sentido e real, com diferentes articuladores. Mas Miller diz que tudo isso segue sendo um impasse. Tenho a impressão de que ele vai trabalhando isso curso depois de curso, tentando produzir uma narração sobre esse impasse. Num momento, é o inconsciente real e o inconsciente transferencial. Contudo, talvez porque não se possa nomear totalmente o real, talvez por isso se fale de pragmática, da pragmática lacaniana que está ligada a essas articulações, a essas conexões. Isso tem a ver mais com o “saber fazer com”. Como se percebe isso na esquizofrenia? Na esquizofrenia, pode-se ver perfeitamente como a rotina organiza um corpo. Então, por exemplo: existe a rotina das normativas do hospital-dia. Por isso, no hospital-dia há esquizofrênicos e não paranoicos. Por que vai ter um paranoico, se é justamente o paranoico que faz a lei? O paranoico não vai aceitar um hospital-dia, ele vai inventá-lo. O paranoico provavelmente vai ser um juiz, porque é ele quem faz as leis. O esquizofrênico, por sua vez, para elaborar essa dispersão dos significantes mestre, necessita de alguém que imponha uma normativa da boa maneira. Então, estabelecem-se as rotinas. Você levanta segunda-feira em tal hora, chega ao hospital no dia x, vai à assembléia de pacientes, depois, vai à oficina de escrita, depois, vai à de pintura. Da mesma forma, na terça, na quarta e na quinta-feira. Depois, vai para casa, etc.

Às vezes, o problema não está tanto nos medicamentos que um paciente toma, senão na rotina em que os toma. Por exemplo, a troca de horário de medicamentos, para alguns esquizofrênicos, pode resultar desastrosa. Ou seja, há uma rotina que organiza o esquizofrênico. Ela é parte da maior fragmentação do real do seu corpo. Embora se saiba que essa rotina, sem a normativa definida pelo hospital-dia, pela instância institucional, sem o recurso do medicamento, demandaria um trabalho de invenção enorme, terrivelmente difícil, até o esquizofrênico poder se fazer um corpo.

Lembrem-se de que Schreber esteve catatônico durante sete anos. Quando, nas Memórias de um doente dos nervos, Schreber diz que foi deixado cair pelo Deus, trata-se do testemunho do momento catatônico. Se seguirmos paralelamente com seu escrito os registros das histórias clínicas dos psiquiatras, iremos perceber que passou por sete anos de catatonia, até que, sem ajuda, organizou novamente um corpo. Isso já não existe em nossa época. Não existem mais esses sete anos de catatonia, por sorte. Por sorte, existem medicamentos que permitem um esforço de invenção de forma mais vivível.

As toxicomanias também dependem de uma rotina. O toxicômano é a pessoa mais alienada e mais rotineira que existe. A rotina lhe permite uma invenção. É fundamental organizar um automaton para que haja uma invenção. Mas isso é muito diferente da ideia da associação livre analítica. Você organiza seus ditos numa série: 1, 2, 3, 4, até que vem a surpresa, o contingente que desorganiza a série para, então, haver uma invenção.

O esquizofrênico põe claramente em jogo o problema da rotina. Trata-se de algo como aposta na invenção, que se consegue ou não se consegue. Porque todos os psicóticos escrevem, todos os psicóticos pintam, mas nem todos são artistas. A arte é uma espécie de metáfora. Sabe-se que isso tem uma dignidade muito importante. Isso não está em discussão. O tema é quem sanciona a arte, quem sanciona o sintoma.

As toxicomanias possuem algo do ilimitado de uma série – como nos esquizofrênicos, vê-se uma dispersão dos significantes mestres. Não há uma metáfora paterna que imponha um limite e, assim, há uma clínica do sem limite. Há uma clínica também da dispersão dos significantes mestres e, claro, os dois – toxicômano e psicótico – tratam de se fazer um corpo. Há algo de certo gozo em se fazer um corpo. Isso pode ser bem observado nas toxicomanias, nas quais se percebe que é muito difícil substituir esse gozo autoerótico pela palavra.

Atendi por um tempo um caso que vai me permitir exemplificar o que digo e depois finalizo. Era um sujeito psicótico que, nos momentos em que seu sintoma psicótico irrompia, seu pensamento se fragmentava. Ele aparecia no consultório absolutamente fragmentado, como se diz tipicamente na esquizofrenia, sem articular, com neologismos e, ao mesmo tempo, podia fazer com seu corpo as coisas mais mortificantes. Tudo isso como forma de se construir um corpo. Cortava-se, introduzia coisas no ânus, diferentes coisas, atos muito terríveis no seu corpo. Por outro lado, consumia cocaína e, quando consumia cocaína, organizava tudo isso, organizava seu laço social, tinha inclusive um discurso e se apresentava socialmente. Então, aparecia a outra face do problema: quando usava cocaína, ele era colocado na cadeia, porque, como tinha que conseguir droga, roubava e terminava sendo julgado. Quando era preso, aplicavam-lhe uma política de abstinência. Nessa etapa, aparecia a pior psicose, a mais desagregada, a mais associal em termos de discurso. Então, era encaminhado para o setor psiquiátrico. Nesse setor, ele se organizava e passava a ser consumidor. Dessa forma, andava de instituição em instituição numa deriva trágica.

O que conseguia com o consumo? Evidentemente, conseguia um estilo de vida, no sentido de um laço, de uma organização egóica, de um estilo consumidor, de laço. Então, propuseram que ele consumisse, mas apenas uma medida. Essa era a condição do tratamento. Obviamente, isso só pode acontecer num consultório ou instituição em que seja possível fazer esses tipos de pactos particulares em relação à medida. Isso introduz uma medida pseudofálica. Vocês sabem que a medida do gozo nas neuroses é o gozo fálico. O excesso é o Outro gozo.

Por isso, Lacan brinca com o normal, a norma-macho. Lacan fala do normal e escreve esse termo como normâle, equívoco entre “norma” e “macho”, em francês. Então, tudo aquilo que se ajusta a uma regulação fálica participa do modo do gozo compreendido na metáfora do complexo de Édipo, incluindo-se aí a castração. É pela angústia de castração que nos comunicamos. Essa é a regulação fálica. Nas psicoses, percebe-se que quando elas articulam algo dessa rotina, isso acontece através de um modo pseudofálico, de um pseudo-Nome-do-Pai. São como que significantes que organizam a vida.  Por exemplo, alguém que diga “eu sou bipolar”, às vezes, pode estar formulando um modo de se enganchar ao Outro. Por esse caminho, percebemos mais ou menos do que se trata quando Paulo dizia “agora o grande problema é a extensão do termo depressão”. São significantes que engancham ao Outro. Nesse sentido, dar uma medida ao consumo, produzir um significante, dizer “minha vida tem um estilo consumidor”, “eu sou isso” é algo que vem na esteira do bom uso da alienação. Trata-se de conseguir inscrever o sujeito em um significante no Outro. Já não é um enxame dos significantes mestres. De algum modo, é uma imaginarização de sentido que engancha um sujeito ao Outro

A possibilidade de introduzir uma medida e de fazer disso um corpo também faz do corpo um acontecimento de corpo. O corpo não estava antes. O corpo é um acontecimento e, como tal, o sintoma faz instituição. O sintoma se arranja como uma instituição no corpo. A ideia de uma instituição no particular não pode se constituir sem uma regulação do gozo no particular e, nesse pacto, no modo de incluir os corpos, no um por um. Porque o “para todos” é uma lógica significante, mas aquilo que excede das normas não é senão o corpo erógeno.

[Pergunta do público] Sobre o projeto terapêutico como algo particularizado e não ligado à rotina.

[Guillermo Belaga] Mas é uma rotina também. É importante diferenciar entre universal, particular e singular. Então, propomos uma rotina, mas, depois, é o próprio sujeito que toma isso como rotina. Mas também pode ser que aquilo propomos como rotina, depois, não seja feito pelo sujeito como rotina. O casamento é uma rotina. Freud pensava que o casamento era o exemplo típico do sintoma social e que isso organizava. No Seminário 20, Lacan dizia, bom, não há relação sexual, mas as pessoas têm relações sexuais. E como isso funciona? Pactos, proibições, convenções e podemos ver como todos os casais têm pactos, convenções, proibições. Por isso, a teoria do casamento para a psicanálise não é a teoria do amor. Há diferentes teorias do amor dentro da mesma psicanálise, porque se pode conceber o amor narcisista, o anaclítico, etc. Ou seja, há diferentes modos de amor. Lacan fala do amor em termos do imaginário, do simbólico e do real. Lacan colocaria o amor mais pelo lado da invenção e não pelo lado da rotina. Em Lacan, o falo e o amor aparecem ligados ao possível e à contingência. Já o sintoma aparece pelo lado do necessário. Pensando nos tempos, nessas modalizações lógicas, existe o impossível como aquilo que não cessa de não se escrever. Depois, também há o sintoma como aquilo que não cessa de se escrever. A alucinação é o exemplo mais claro do necessário, do que não cessa de se escrever. Aliás, são os mesmos termos do superego.

Como se sai disso?  Com o contingente.

Não é que a ideia do automaton seja imposta pelo praticante. O automaton já está no sujeito – no esquizofrênico também. Há um automaton ligado à fragmentação da linguagem, à dispersão da linguagem no corpo. Propomos uma rotina como que dando uma orientação legível do significante mestre, de pelo menos um. Entendo por aí o projeto particular, por exemplo, como no caso do paciente que vimos ontem. Um paciente que tem como forma de esvaziamento do gozo a escrita. Então, organizamos uma oficina de escrita para ele. Bem, trata-se de uma rotina ligada ao simbólico do paciente. Essa rotina particular vai funcionar realmente como uma invenção sintomática, vai organizar um certo esvaziamento do gozo. Para quê? Para sair da rotina que a instituição oferece, de modo que ele faça a instituição do seu sintoma – que é o problema da saída da instituição. Há esquizofrênicos que se organizam de tal forma e que precisam de pouca medicação, embora no começo necessitem de muita. Está claro que podemos reconhecer que o paciente da internação sai com um número x de doses, por exemplo, com cinco psicofármacos etc. Por quê? Porque o esquema da mediação imaginária começa a funcionar.

O grande problema da internação não diz respeito apenas ao descuido dos pacientes. O grande problema da internação está no fato de que se perdeu de vista a pregnância imaginária que organiza os pacientes. Eu não idealizo muito a desmanicomialização Quero dizer, penso que sim, os manicômios devem acabar, porque eram parte da miséria de uma época. No entanto, isso não resolve a miséria subjetiva. Pode-se estar tão esmagado pelo supereu ou pelas vozes dentro de um manicômio ou dentro de um CAPS. Então, não se soluciona o problema da miséria subjetiva. Esse problema tem a ver com o fato de um sujeito se encontrar diante da pulsão de morte sem recurso ao simbólico. A dignidade que a psicanálise pode oferecer é justamente esse recurso ao simbólico como forma de resolver algo em relação à pulsão de morte. A psicanálise se preocupa com a miséria subjetiva.

[Comentário do público] Sobre o esforço contemporâneo para ressuscitar o pai e como reconstruir um pai que a própria ciência derrubou, destacando que isso pode nos fazer cair no perigo de trazer de volta o velho patriarca.

[Guillermo Belaga] Estou totalmente de acordo com teu comentário.

Lacan, em 1975, diz que Freud não foi o inventor do sintoma. Foi Marx, porque ele leu como o real atravessava o simbólico. Diante disso, ele inventou um sintoma social. Lacan, então, diz que o sintoma social não é de Freud, é de Marx. Tudo aquilo que podemos dizer sobre os novos sintomas está na dimensão do sintoma social. A toxicomania não é um sintoma analítico, a anorexia não é um sintoma analítico, a violência não é um sintoma analítico. São sintomas sociais.

Depois, ele ainda diz que ficariam no mesmo lugar que Marx definiu se não se articulassem ao gozar do inconsciente. É na articulação do gozar do inconsciente que os sintomas particulares se produzem. A possibilidade de passar de um sintoma social para um sintoma particular se dá pela via do gozo do inconsciente, ou seja, através do um, através de um significante. É isso que organiza o inconsciente como discurso. Nos discursos, o discurso do mestre é o discurso do inconsciente. É necessário ter um significante como agente que ordene o discurso. Por isso, entendo a possibilidade da passagem do sintoma social ao sintoma particular pela via de uma operação analítica. Quer dizer que é necessário um analista para sancionar o dito, porque é como Miller dizia sobre o inconsciente real e sobre o inconsciente transferencial. O inconsciente transferencial diz respeito ao inconsciente de um simbólico articulado. O inconsciente real seria um simbólico incomunicável.

Então aí vem outra frase barroca de Lacan que me parece contemporânea, dita na década de 70. Do mesmo modo que ele diz que o sintoma social só tem possibilidade de ser particular na medida que se engancha ao gozar do inconsciente, também diz “que podemos prescindir do Nome-do-Pai [...] com a condição de nos servirmos dele” (LACAN, 2007, p. 132). Essa frase é barroca porque tem dois pólos. Trata-se de prescindir com a condição de fazer um uso. Prescindir no sentido de que existe o real, a condição de fazer um uso do semblante, por exemplo. Quando falamos de organização pseudofálica do psicótico, fazemos referência à organização de algum semblante. Isso é um discurso, são os semblantes que organizam os discursos. Então, o problema de apelar ao Nome-do-Pai não é a saída reacionária para que Miller adverte em Comandatuba. É não apelar ao pai reacionário. Não é preciso transformar-se em um psicanalista reacionário, senão seguir pelo caminho do uso poético do S1.

Há um uso político do S1, que é a alienação: apelar ao S1 que te inscreve ao Outro. Porque, na alucinação, não há um Outro e, diante do trauma, também não há um Outro. Diante de alguém que tem um ataque de pânico – que é o modo de irrupção do real na neurose –, sabe-se que não há família, não há comunidade, não há Outro; há um nonsense absoluto e uma espécie de presentificação do corpo muito particular.

O que fazemos como primeira operação diante do ataque de pânico é dizer “conte-me como funcionava o Outro para você”. Para quê? Para adaptá-lo? Não, para que se enganche a um S1 legível de sua vida e para que comece a trabalhar. Ou seja, a possibilidade de fazer legível um S1 da existência é fundamental para um início de tratamento. Mas isso não implica deixar as coisas nos termos da alienação. Trata-se, antes, da operação de alienação que se introduz sobre um discurso, já que no horizonte ético da psicanálise estão a separação, a invenção, os modos éticos que Lacan apresentou em torno de um modo mais vivível do gozo.


NOTAS

1 Conferência proferida no Colóquio “Psicanálise e Saúde Mental: qual o encontro possível?”, organizado pelo Núcleo de Pesquisa Sobre Psicose da EBP – Seção Santa Catarina entre 14 e 15 de novembro de 2009. Transcrição e tradução de Adriana Sappino. Revisão da tradução de Diego Cervelin.

2 Chefe do Serviço de Saúde Mental do Hospital Central de San Isidro (Buenos Aires, Argentina).

REFERÊNCIAS

FREUD, Sigmund. Observações psicanalíticas sobre um caso de paranoia (dementia paranoides) relatado em autobiografia (“O caso Schreber”, 1911). In: ______. Obras completas. Vol. 10. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 13-107.

______. Psicologia das massas e análise do eu (1921). In: ______. Obras completas. Vol. 15. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p. 13-113.

______. A negação (1925). In: ______. Neurose, psicose, perversão. Tradução de Maria Rita Salzano Moraes. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2016, p. 305-314.

LACAN, Jacques. Os complexos familiares na formação do indivíduo (1938). In: ______. Outros escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 2003, p. 29-90.

______. O Seminário. Livro 1 – os escritos técnicos de Freud (1953-1954). Tradução de Betty Milan. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.

______. O Seminário. Livro 3 – as psicoses (1955-1956). Tradução de Aluísio Menezes. Rio de Janeiro: Zahar, 1988.

______. De uma questão preliminar o todo tratamento possível da psicose (1959). In: ______. Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 537-590.

______. O Seminário. Livro 20 – mais, ainda (1973-1973). Tradução de M. D. Magno. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

______. O Seminário. Livro 23 – o sinthoma (1975-1976). Tradução de Sérgio Laia. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.

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