SUBVERSÕES 

made for a party 1936Made for a Party, 1936 - Hanna Höch

Oscar Reymundo
AP, Membro da EBP/AMP
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Parto da seguinte afirmação para destacar o caráter subversivo da psicanálise: “[...] o psicanalítico é o discurso que, como nenhum outro, tem abalado os semblantes da civilização” (MILLER, 2016, p. 22). Digo caráter subversivo e não revolucionário destacando, precisamente, o termo semblante, uma vez que ele nos remete à defesa perante o real do gozo sem lei e sem sentido no qual se funda o estritamente humano.  

No legado freudiano vemos coincidir a invenção psicanalítica com um pensamento político novo que, questionando os semblantes que organizam a ordem central, podemos formular dizendo que a Lei não é aquilo que pretende ser, isto é, a instância do Supereu, o Imperativo Categórico, o herdeiro do Complexo de Édipo, ou seja lá qual for a nobreza simbólica com a qual a Lei se apresente, ela sempre mantém uma relação estrutural com a pulsão de morte (cf. ALEMÁN, 2007, p. 13). Assim, a “revolucionária” oposição entre um poder opressor e uma expressividade que quer libertar-se do poder para conquistar sua liberdade, ou a ideia de que um poder despótico e estranho impede a expressão de uma pulsão naturalmente criativa e livre, essa ideia fica definitivamente desconstruída. Como também fica descontruído o ideal moderno de ser possível desfazer a secreta cumplicidade entre termos que se pretendem opostos. Não faltam exemplos na história das civilizações nos quais a luta contra a opressão deu lugar a um opressor tanto ou mais feroz que o anterior (cf. ALEMÁN, 2007, p. 13).

A herança freudiana nos permite afirmar que antes do que sustentar um ideal de revolução enquanto movimento circular e repetido em torno de um centro e somente de um centro, a subversão psicanalítica consiste em ter feito do lugar central um lugar vazio. Assim, o psicanalítico é o único discurso que está fora da lógica da dominação, uma vez que tem como agente do mesmo o objeto perdido causa do desejo. Isto implica, então, em que o poder do desejo consista na subversão dos imperativos. É por isso que a psicanálise é subversiva, porque subverte os imperativos do seu tempo. Porque o psicanalítico não é um discurso de dominação, põe em evidencia que aquilo que rechaçamos por distante, estranho e descentrado pode revelar-se o mais próximo, íntimo e familiar. Considerar este real que habita todos os âmbitos da experiência humana exclui, definitivamente, a ideia de que algo na vida do ser falante seja normal ou de que alguma normalidade possa ser recuperada pela via revolucionária. Nós, os seres falantes, não dispomos de uma articulação automática entre satisfação e bem-estar. A pulsão empurra sempre para uma satisfação que vai além do bem-estar e, nessa acefalia, nada importa sobre o cuidado de si ou da vida. Por isso inventamos normas, porque não existe órbita a priori onde traçar revoluções em torno de um centro consistente, inventamos normas fundadas, sempre, em uma ausência irredutível, normas sempre insuficientes para o que há de singular, para o que há de fora do sentido na vida de cada ser falante, sexuado e mortal e é, justamente por isso, que só podemos seguir inventando. Seguir inventando e questionando os imperativos da época no caminho traçado por Freud ao colocar, talvez pela primeira vez na cultura e à margem do discurso científico, a questão acerca de como o ser falante devem um ser sexuado. Esta é, a subversão freudiana. Nada de natural existe na relação do ser humano com seu corpo e é por isso que a sexualidade se constitui num sintoma enquanto resposta à sexuação. Estamos aqui, de cheio, no campo das invenções singulares, uma vez que, de fato, a pulsão não tem um objeto predeterminado, nem pela natureza, nem mesmo pela educação, e é a fantasia inconsciente que oferece um objeto que vem ao lugar do objeto perdido, isto é, um semblante.

Freud nos apresentou a ordem simbólica como sendo a que permite organizar as condições de gozo e de amor na fantasia e na trama de identificações sexuadas através do Complexo de Édipo regido pelo Nome-do-Pai, tendo o significante fálico como o eixo das significações que ordenam o campo da vida sexual dos seres falantes, das suas escolhas e seus impasses. Podemos dizer que nisso se baseia o falocentrismo de sua teoria. Já nos tempos lacanianos “a teoria edípica e falocêntrica freudiana se viu ultrapassada nos seus limites previstos e foi integrada na elaboração lacaniana do seu último ensino com a pluralização do Nome-do-Pai, a orientação pelo real sem lei e a reordenação do campo do gozo resultado dessa nova elaboração” (BASSOLS, 2015, p. 22). Podemos dizer que esta é a subversão lacaniana efeito do retorno a Freud.  

Novos paradigmas com os que procuramos dar conta dos novos fenômenos que surgem na cultura e na nossa clínica, nestes tempos em que ciência e técnica possibilitam, por exemplo, rearranjos inéditos da diferença dos sexos. Rearranjos que nos assinalam um descentramento que atinge, diretamente, o tradicional binário identitário homem-mulher e que se manifesta através da pluralização de nomeações identitárias em uma série aberta de novas invenções sinthomáticas, ou melhor, variações sinthomáticas do gênero, que podemos interpretar como tentativas inéditas de ordenar o gozo opaco para além das oposições significantes. Uma multiplicação de significantes que, desenvolvendo-se sem lei prévia, deixam transparecer as contingencias do simbólico na sua aproximação do real lacaniano como um real sem lei*. Em outras palavras, uma multiplicação ilimitada de significantes que dá testemunho do impossível casamento entre o vivo e a linguagem, apesar das irresponsáveis promessas de sucesso para todos que o Discurso do Amo contemporâneo possa fazer com relação à adequação do gozo com ideias de harmonia na relação entre os sexos. Digamos que a subversão lacaniana que lhe permitiu ir além da lógica fálica com sua formalização sobre o além do gozo fálico em termos de um gozo não-todo fálico, constitui-se como uma nova referência numa clínica que podemos chamar de herética (cf. ANSERMET, 2018). Herética no sentido que nossa colega Maria Josefina coloca como a de ser uma clínica onde o que está em jogo é “uma escolha que, para a psicanálise consiste naquela que leva em conta a singularidade do sinthoma desnudado em seu real e em sua estrutura, sem sacrificar o gozo sem sentido” (FUENTES, 2018, p. 204).

Referências 

ALEMAN, J. Lo real de Freud. Madrid: Ediciones Pensamiento, 2007.

ANSERMET, F. Intervenção na reunião dos Observatórios de Gênero, Biopolítica e Transexualidade da FAPOL, em 6 de abril de 2018, em Barcelona.

BASSOLS, M. Heteroelecciones. In: Elecciones del sexo. De la norma a la invención. Madrid: Gredos, 2015.

MILLER, J-A. Pela liberdade da palavra. In: Correio 79, São Paulo, EBP, 2016.

SOTA FUENTES, M. J. Heresia. In: Scilicet. As psicoses ordinárias e as outras. São Paulo: Escola Brasileira de Psicanálise, 2018.  


* No site “Lista de identidades não-binárias” constam 102 classificações que descrevem multiplicidade, ausência, parcialidade de gênero, dentre outras.

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imagem: alana tedesco