PAIS SEM PAZ OU PAIS SEM PAIS[i]

raumfahrt 1956Hannah Höch, Raumfahrt, 1956

Diego Cervelin[2]
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Vou fazer alguns comentários em torno de dois filmes – dois filmes que, talvez, estejam entre os mais inquietantes que exibimos na atividade Psicanálise vai ao cinema. São eles: Dente canino, de Yorgos Lanthimos, e Miss Violence, de Alexandros Avranas. Eles trazem um deslocamento que parece ir dos mitos até as pulsões – na faceta mais especificamente acéfala e que nos toca pelas entranhas.

Para além de esses dois filmes serem gregos, ambos colocam em cena dois pais extremamente rígidos e, pelo menos na aparência, onipotentes. Nesse sentido, eles não deixam de recordar, mesmo que por alusão e por contraste, duas figuras míticas retomadas ao extremo em nossa tradição: por um lado, aquele demiurgo platônico (VLASTOS, 1987, p. 26) que, estando fora do mundo, surgia como entidade capaz de modelar as matérias caóticas na semelhança da Ideia; e, por outro, aquele pai da horda primeva, aquele macacão desconhecedor da norma que viria apenas com seu assassinato, justamente porque era tão amado quanto odiado.

Os mitos, sem denotar uma forma de saber irracional ou ultrapassada, no fundo, têm uma função lógica bastante precisa na vivibilidade dos sujeitos. Perpassados pela matéria das fantasias, os mitos tapam – ou tentam tapear – as falhas do saber sobre aquilo que insiste em não se mostrar sem que também venha junto uma multiplicação de enigmas ou de instâncias alheias ao sentido (LACAN, 2010 [1960-1961], pp. 154-155).

É nesse ponto que, nos filmes, entram doses nem tão sutis de ironia. Dizia que os pais de Dente canino e de Miss violence se mostram “aparentemente onipotentes”. E, de fato, eles esbravejam, dão ordens, acumulam abusos, encabeçam inquéritos, distribuem penas e premiações num cenário que não deve nada ou muito pouco ao pior dos mundos – tudo isso, em nome da ordem. Ostentando sua incapacidade de divisão e desconhecendo qualquer alteridade no outro ou neles próprios, eles se transformam em performadores de palavras arbitrárias que produzem efeitos na medida em que se fazem acompanhar de violências de toda sorte, de barganhas que enlaçam promessas de gozo, de satisfação e terror. Ao imporem suas disciplinas, ao controlarem os corpos, auxiliados por suas companheiras e guiando-se pela inquestionabilidade de seus imperativos, eles se mostram hábeis em aniquilar os sentidos daqueles que os cercam e em expor cruamente aquilo que resta por fora do sentido.

Os pais de Dente canino e de Miss violence já não são patriarcas nem amáveis nem odiáveis. Eles se apresentam, antes, como apóstolos da ordem de ferro que traça destinos exigindo um máximo de rendimento, sem exceções (ALVARENGA, 2012): nomeiam para qualquer coisa (LACAN, 19.03.1974) que não faça frente ao infinito do mais-de-gozar (LACAN, 2008 [1968-1969], p. 19). E, com isso, eles se distanciam profundamente daquela função paterna comentada por Lacan na “Nota sobre a criança” (2003 [1969], p. 369), quando destacava que, através dessa função, haveria certa transmissão de um desejo que não seria anônimo, pelo fato de estar encarnado pela singularidade de um sujeito e por não se reduzir às satisfações das necessidades. Desejo, nesse caso, é algo que faz uma barra ao mortífero do gozo precisamente por comportar uma falta, um para além que não se configura facilmente nem nunca se preenche de todo, mas que, mesmo assim, permite, possibilita que um percurso, uma vida seja construída. Ou seja, trata-se, aí, da elaboração de uma espécie de baliza com que um sujeito pode se orientar – servir-se dela para tecer seus laços de vida com os outros.

Mas diante de quem esses pais loucos abaixavam suas cabeças? Um deles, em Dente canino, era aluno atento do adestrador de cães e foi enquanto tal que ele se nomeou pai, conforme vimos quando ensinava como seus familiares deveriam agir diante do inimigo, do “gato” – um outro qualquer que surgia para reforçar as estruturas imaginárias do “nós” familiar. Em Miss violence, esse outro pai se curvava servilmente ao burocrata que lhe havia dado um emprego mal remunerado no mais amorfo dos ambientes. Ele, que, em casa, era um abusador incestuoso, tampouco deixava de sucumbir às vicissitudes da massa disponível às mãos nem tão invisíveis do mercado.

É por meio da atualização farsesca da tragédia do ser, da impossibilidade de ser senhor em sua própria casa (FREUD, 2013 [1917], p. 381), que esses pais saturam as faltas por objetos (BROUSSE, 2018), numa luta pela subsistência que se confunde com as mais atrozes das sub-existências. Talvez eles não soubessem ou não quisessem saber desse “desterro” do inconsciente, mas eles tampouco poderiam deixar de se surpreender com uma emergência do acaso – sempre imprevisível. Nos dois filmes temos... na falta de melhor nome, duas “heroínas”, duas figuras que se contrapõem aos atos dos pais. Em Miss violence, aquele abusador incestuoso é morto pela mãe, sua companheira. Sua passagem ao ato, no entanto, não tem nada de redentor – lembra muito mais um gesto de violência que insiste em permanecer por fora do discurso. É um linchamento. Aliás, que poderíamos esperar dela, que era sempre tão silenciosa nos momentos decisivos? Que segredo se desvela senão este: que seu ato faz da exceção regra, reiterando que todo e qualquer um seja matável (AGAMBEN, 2004, p. 91). Miss violence, senhora violência, se redobra, então, como bem marcou Gustavo Ramos em seu comentário ao filme, enquanto I miss violence, eu sinto falta de... violência – e quero mais, ainda, poderíamos acrescentar. Em Dente canino, por outro lado, essa contraposição é colocada em ato por uma das filhas que, submetendo-se e, ao mesmo tempo, subvertendo os ditos paternos, arranca seu dente para ganhar um mundo, um mundo que veio, nebuloso ainda, através dos contornos dos filmes de Bruce Lee. Ela, em seu gesto, parece fazer eco àquela passagem de Lacan em que ele sustentava que, para ter uma vida, perde-se algo num acontecimento de corpo. A bolsa ou a vida! Perde-se, então, uma parcela de satisfação para ter algum mundo (LACAN, 1998 [1964], pp. 194-204) – mesmo que, nele, nosso sorriso nem sempre tenha as melhores acolhidas. Trata-se aqui de uma exceção que já não condiz com aquela paterna, nem é exatamente fálica, mas que, diferentemente, é singular. Ela passa pela sua modalidade de gozo numa espécie de enlaçamento com um outro mundo, um mundo que não é só seu e que tampouco se reduz apenas ao seu eu.


Referências

Agamben, G. Homo sacer. O poder soberano e a vida nua I. Belo Horizonte: UFMG, 2004.
Alvarenga, E. Entrevista realizada por Glacy G. Gorski. In: ___. EBP Debates, núm. 3. Disponível em: < https://www.ebp.org.br/dr/ebp_deb/ebp_deb003/entrevista_elisa.asp>
Brousse, M. H. Democracias sin padre. Disponível em: <https://zadigespana.wordpress.com/2018/01/ 20/democracias-sin-padre/>

Freud, S. Conferência 18. A fixação no trauma, o inconsciente [1917]. In: ___. Obras completas. Vol. 13. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
Lacan, J. O Seminário. Livro 21 – les non-dupes errent. Aula de 19 de março de 1974 [Inédito].
___. O Seminário. Livro 11 – os quatro conceitos fundamentais da psicanálise [1964]. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
___. Nota sobre a criança [1969]. In: ___. Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.
___. O Seminário. Livro 16 – de um Outro ao outro [1968-1969]. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
___. O Seminário. Livro 8 – a transferência [1960-1961]. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.
Vlastos, G. O universo de Platão. Brasília: UNB, 1987 


[1] Texto originalmente apresentado na primeira noite do Colóquio de Psicanálise e Cinema, que ocorreu entre 31 de agosto e primeiro de setembro de 2018, no Centro Integrado de Cultura numa parceria com a Seção Santa Catarina da Escola Brasileira de Psicanálise.

[2] Analista praticante. Participa das atividades da EBP – Seção SC, coordena o “Ateliê de Leitura de O Seminário. Livro 18 – de um discurso que não fosse semblante” e, com Juliana Rêgo Silva e Paula Lermen, o “Ateliê de Leitura de Textos Freudianos” e, com Fernanda Turbat, o “Ateliê de Leitura do Escrito A direção do tratamento”, no Instituto Clínico de Psicanálise da Orientação Lacaniana de Santa Catarina. Doutor em Literatura (UFSC).

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imagem: alana tedesco