UM DELÍRIO DISCRETO DE AUTOACUSAÇÃO

Luis Francisco Espíndola Camargo[1]
AP, membro da EBP e da AMP 

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Paris 1paris I, setembro 2018 - louise lhullier

O título desse trabalho é inspirado nas Leçons cliniques sur les maladies mentales et nerveuses (1895) de Jules Séglas, onde encontramos um capítulo consagrado aos delírios de autoacusação, “delírios ordinários” recorrentes em algumas doenças descritas no final do século XIX. Esses delírios apareciam nas chamadas melancolias, manias, obsessões, paralisias gerais, na confusão mental e, sobretudo, nos casos de alcoolismo. Atualmente, também observamos esses fenômenos nas doenças do pensamento, as neuroses obsessivas e as psicoses paranoides. Séglas os associava às “loucuras intermitentes”, nas quais se observavam períodos de remissão dos sintomas, intercalados com períodos de paroxismos.

Em relação às “obsessões”, por exemplo, Séglas (1895, p. 106) aborda uma questão controversa, sobre a presença ou não de alucinações, haja vista que a maioria dos autores nessa época excluíam desse quadro fenômenos psicóticos, entre eles, Falret e Charpentier. Séglas dividia as alucinações nas obsessões em dois grupos em relação à ideia obsedante, as primitivas e secundárias. No primeiro caso, a alucinação tem uma existência independente da ideia obsedante; no segundo, a ideia obsedante é acompanhada de uma alucinação por ela provocada. As alucinações decorrentes da ideia obsedante, geralmente verbais, são correspondentes a outras variedades de fenômenos de linguagem descritos na época pela onomatomania, isto é, a repetição mental de uma palavra ou receio em pronunciar ou ouvir certas palavras. Essas alucinações verbais secundárias foram chamadas por Séglas de alucinações ordinárias, muito frequentes em casos de obsessões onde os sujeitos a descrevem como algo “que vem ao espírito como se alguma coisa lhe dissesse interiormente, ou como se falasse a ele mesmo” (SÉGLAS, 1895, p. 110). Essa diferenciação de Séglas pode ser relida hoje, a partir da clínica das psicoses ordinárias, do seguinte modo: as alucinações primitivas caracterizam fenômenos elementares das psicoses extraordinárias, as secundárias, oriundas da ideia obsedante, onde podem ser lidas como fenômenos imaginários decorrente da estrutura da neurose ou de uma psicose ordinária. Geralmente, essas alucinações oriundas da ideia obsedante são interpretadas pelos sujeitos como um fenômeno proveniente de uma voz interna e não externa e invasiva. Nas Lições clínicas (passim) de Séglas é muito evidente uma divisão entre esses fenômenos “extraordinários e ordinários”.

Em relação aos delírios de autoacusação, a partir da apresentação de alguns casos, Séglas demonstra que eles derivam de estados de melancolias ou manias, sejam “circulares, alternantes” ou na sua “forma dupla”, constituída pela alternância regular entre acessos melancólicos e acessos maníacos, separados ou não por períodos remissivos. Trata-se do que se denomina hoje de transtornos bipolares. Nesse sentido, podemos investigar se por trás desses transtornos não encontramos de fato psicoses ordinárias.

Trichet (2011), publicou em 2011 sua tese de doutorado intitulada L’entrée dans la psychose, onde dedica um capítulo à Gênese e construção do conceito de desencadeamento em Lacan. O conceito de desencadeamento atinge sua forma definitiva em 1958, no texto De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose. Sua forma acabada se apoia sobre a abordagem estruturalista de Lacan. O conceito de desencadeamento é correlacionado ao conceito de estrutura. Trata-se sempre de desencadeamentos de estruturas, típico da clínica descontinuísta.

A evolução do conceito de desencadeamento em Lacan pode ser descrita a partir de três etapas. A primeira, inaugurada em 1931 pelo texto Estruturas das psicoses paranoicas, irá encontrar sua formulação final na sua tese de doutorado de 1937, Da psicose paranoica e suas relações com a personalidade, onde a entrada na psicose acontece devido a um “traumatismo afetivo”, denominado “primitivo”, ligado a uma situação familiar anômala. A estrutura se desencadeia no encontro do sujeito com uma situação decisiva na sua vida, um acontecimento não simbolizável semelhante ao acontecimento primitivo. A segunda etapa aparece no texto Os complexos familiares de 1938, onde o desencadeamento foi associado à “fase fecunda do delírio”, substituída em 1946 pelo sintagma “momento fecundo”. A estrutura da personalidade era relacionada à estrutura do complexo de Édipo. Uma interrupção no seu desenvolvimento correspondia a uma interrupção no desenvolvimento da personalidade, determinando a estrutura psicótica. A fase fecunda da psicose era o momento onde o sujeito é colocado diante de uma situação na vida na qual ocorre uma “realização edipiana”, situação triangular semelhante aos objetos parentais. A impossibilidade de dialetizar identificação a edipiana e identificação narcísica provoca o desencadeamento da psicose. Essa formalização se concretiza nos anos 50, quando Lacan prioriza no seu ensino o registro do simbólico, no seminário sobre as psicoses (1955-56) e em dois artigos, A instância da letra no inconsciente (...) (1957) e De uma questão preliminar (...) (1958). No primeiro, encontramos a formulação de sua teoria do significante, as fórmulas da metáfora e da metonímia e o lugar do sujeito na cadeia. No segundo, encontramos o esquema R e I, um comentário sobre o desencadeamento do Presidente Schreber, a fórmula da metáfora paterna e da significação fálica, e a tradução definitiva do termo Verwerfung por forclusão[1].

Conforme Trichet (2011, p. 229), a partir dos anos 60 Lacan não retornará mais à sua concepção de desencadeamento. Nos anos 70, as propriedades existentes da relação dos três registros, o real, o simbólico e o imaginário, pensada sobre o modelo do nó borromeano irá fundamentar uma nova teoria sobre a psicose. Tal aparelhamento implicará na revisão do conceito de desencadeamento, que será equivalente ao desenodoamento dos elementos de uma estrutura quaternária.

A partir de um programa de pesquisa inaugurado em 1996 no Conciliábulo de Angers, Efeitos de surpresa nas psicoses, seguido pela Conversação de Arcachon em 1997 sobre os casos raros, os inclassificáveis da clínica, e, em 1995, pela Convenção de Antibes, onde se discutiu A psicose ordinária, surge uma reatualização do conceito de desencadeamento proposta por Hervé Castanet e Phillipe de Georges, abordada pelo termo neodesencadeamento; branchements, débranchements e rebranchements, traduzidos por ligamentos, desligamentos e religamentos[2]. Essa proposta de aggiornamento da clínica da psicose se concretiza sobre um programa de pesquisa proposto por Miller, coroado pelo termo psicose ordinária, que tem como objetivo lançar luzes sobre a clínica dos casos raros e inclassificáveis. No entanto, o adjetivo ordinário para fenômenos das neuroses e psicoses psicopatológicos não é absolutamente novo, remonta a psiquiatria do final do século XIX.  

A entrada na psicose

Z entra na psicose aos dezoito anos, após colocar um ponto final no seu relacionamento com uma namorada toxicômana, sobre a qual seus pais teciam muitas críticas. Essa crise o conduz a um estado de perplexidade e estupor, seguido de uma breve hospitalização onde será medicado. Assim que voltou para casa, passou por um breve período melancólico, onde imagens impostas lhe vinham à cabeça, imagens e pensamentos em que está sodomizando suas parceiras. Esse fenômeno elementar é o aparecimento do complexo de Édipo no real, impossível de ser simbolizável para esse sujeito, vindo a ser o signo de um acontecimento primitivo, responsável pelo desencadeamento da estrutura que o conduz à hospitalização.

Depois de um longo período de remissão da psicose seguido de um novo relacionamento amoroso, Z. consegue o emprego almejado. O término desse novo relacionamento irá provocar uma nova crise no trabalho, caracterizadas por uma série de delírio de autoacusações. As conversas dos colegas, ruídos, murmúrios, qualquer palavra, serão sempre tomadas como críticas e acusações; injúrias e fofocas. “Os outros estão falando de mim, comentando os meus erros. Talvez eu tenha falado algo desagradável, talvez eu deveria ter sido mais gentil (...), falam de mim, do meu jeito de se comportar”. Após a segunda crise, Z. resolve procurar um psiquiatra e adere ao tratamento medicamentoso. Sua determinação é admirável, não quer ser afastado de suas atividades (trabalho, lazer e família). Após dois anos de estabilização, tem uma terceira crise, semelhante a segunda, caracterizada novamente por delírios de autoacusação. Nesse momento, toma a decisão de procurar um analista. 

Tratamento sob transferência

Ao chegar ao analista, Z. visava mudar a medicação, tratar os seus delírios para poder trabalhar. Restava ainda um delírio discreto de autoacusação. Em algumas ocasiões ainda distorcia as conversas dos outros, traduzindo como acusações e críticas dirigidas a si. Se considerarmos o delírio como um tratamento, temos aí um tratamento pelo Outro por meio da inserção da sua voz na voz do Outro.

Com a análise consegue obter um “bom” ajuste da posologia e da prescrição dos seus medicamentos, realizado, em efeito, por ele mesmo. Trata-se também de um auto tratamento, do qual o psiquiatra cede à estratégia do paciente. Assim, após um ano com o analista passa a encontrar uma boa prescrição com a Risperidona, que age principalmente na intensidade dos delírios. É importante ressaltar que esse ajuste é decorrente de certas elaborações nas sessões. O auto tratamento passa pelo psiquiatra e por sua parceira amorosa, usuária de Cannabis, o outro da toxicomania, e por uma separação da sua própria voz da voz do Outro, caracterizando um afastamento assintótico do significante do Outro.

Há duas mudanças subjetivas concretas na evolução do caso. A primeira consiste na redução do delírio extraordinário em um delírio discreto, delírio ordinário, como descreveu Séglas. O ajuste da medicação e a identificação dos momentos fecundos modificam os efeitos extraordinários em ordinários. A questão do paciente recai sobre a remissão dos delírios, na curiosidade de saber se é consequência do uso de medicamentos ou do tratamento com analista, questão comum nesses casos. Podemos afirmar que é pelos dois, já que é na análise que o auto tratamento se concretiza. A segunda mudança subjetiva é a redução dos fenômenos da psicose, possibilitando pensar nesse caso em uma abordagem clínica continuísta entre psicose e neurose.

Vale lembrar que uma das razões iniciais que levaram Z. a nos procurar foram as queixas em relação a suas parceiras amorosas. Queixas sobre momentos de impotência, falta de vivacidade, determinação, pragmatismo e iniciativa. Já os seus períodos de maiores angústias são quando experimenta o orgasmo, que descreve como desordenador, conduzindo-o sempre em direção a um ponto opaco, onde não há metaforização sobre as ideias que lhe são impostas. Encontramos aí um fenômeno secundário sobre uma ideia obsedante, conforme descrito por Séglas.

Trata-se de desligamentos e religamentos realizados em análise, lugar onde pode endereçar a sua fala e tratar a voz. Uma loucura intermitente onde a transferência ao analista se estabelece sobre uma posição de acolhimento dos impasses diante da sexualidade.

Esse caso serve para ilustrar que uma redução dos fenômenos psicóticos extraordinários a fenômenos ordinários pode ter sua origem nos auto tratamentos realizados via a toxicomania ou via o uso de psicofármacos. Nesse caso é patente que os delírios ordinários são secundários, desenvolvidos sobre uma ideia imposta metaforizada pelo discurso da ciência, localizado nas prescrições medicamentosas e nos ajustes da posologia.


[1] “A Verwerfung será tida por nós, portanto, como foraclusão do significante” (LACAN, 1998b, p. 564).

[2] “O que nos propusemos a estudar com o termo neodesencadeamento é a atualização necessária do conceito de desencadeamento, tal como enunciado em sua forma canônica, por Lacan, em sua Questão preliminar” (BATISTA; LAIA, 2012, p. 21).

NOTA

[1] Professor do Departamento de Psicologia da UFES

REFERÊNCIAS

BATISTA, Maria do Carmo; LAIA, Sérgio (Org.). A psicose ordinária. Belo Horizonte: Scriptum Livros, 2012.

COTTET, Serge. A hipótese continuísta nas psicoses. In: ________. Ensaios de clínica psicanalítica. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2011, p. 43-52. (Opção Lacaniana, nº 8).

LACAN, Jacques. A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud. In: ________. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, p. 496-436.

_______. Da psicose paranoica e sua relação com a personalidade. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1987.

_______. De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose. In: ________. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, p. 537-590.

_______. Structures de psychoses paranoiaques. Semaines des Hôpitaux, jul. 1931, p. 437-445.

MALEVAL, Jean-Claude. Logique du délire. Rennes: Presses Universitaires Rennes, 2011

MILLER, Jacques-Alain. Retour sur la psychose ordinaire. Quarto. Revue de Psychanalyse publiée à Bruxelles, nº 94-95. Bruxelles: ECF, jan. 2009, p. 40-53.

SÉGLAS, Jules. Leçons cliniques sur le maladies mentales et nerveuses: (Salpêtrière, 1887-1894). Recuilles et publiées par Henry Maige, Paris: Asselin et Houzeau, 1895.

TRICHET, Yohan. L’entrée dans la psychose. Rennes: Presses Universitaires Rennes, 2011.


Resumo: Pretende-se com esse breve artigo desenvolver a ideia de que os fenômenos psicóticos ordinários são secundários a uma ideia de base. O caráter discreto desses fenômenos pode ser decorrente de um auto tratamento pela toxicomania ou pelo uso de psicofármacos, um processo metafórico apoiada no discurso da ciência.

Palavras-chave: Delírios discretos; delírios ordinários; psicoses ordinárias; desencadeamento; auto tratamentos.

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